Tenho em mente…
Segunda-feira, 3 de Abril de 1978
Hoje recomeçaram as aulas. Não sei se fiquei contente ou se devia dizer que fiquei contente, mas talvez tenha sido mais isso do que o contrário.
Voltei a ver colegas que já conhecia e também algumas caras novas, além de outras que não via há bastante tempo. Há qualquer coisa de estranho no regresso. Durante os dias em que não há aulas parece que as pessoas ficam suspensas, como se a vida de cada uma continuasse longe de nós. Depois voltamos a encontrá-las e tudo parece retomar o seu lugar, mesmo que dentro de nós as coisas já não estejam exactamente onde estavam.
Tenho em mente…
Dou ao vento os meus sonhos e pensamentos
para que batam à porta do coração
de quem já perdi.
Talvez seja isso que ainda faço sem dar por isso. Deixo sair aquilo que não sei onde colocar, esperando que alguma coisa chegue a quem já não está verdadeiramente ao meu alcance.
Tenho em mente
uma loucura jamais cometida.
E, ao mesmo tempo, espero em vão uma mão forte que me segure o impulso que me atira para as trevas do fundo e medonho poço da ilusão.
Sei que existe dentro de mim qualquer coisa que nem sempre consigo dominar. Uma vontade que pode crescer quando devia parar, uma esperança que às vezes se alimenta de coisas que talvez não passem de imaginação. É por isso que penso nessa mão que me detenha antes da queda.
Preciso de uma voz calma
que faça parar dentro de mim
o apelo da derrota.
Não preciso de alguém que me diga aquilo que quero ouvir. Preciso de alguém que consiga fazer-me parar quando já não sou capaz de o fazer sozinho.
A derrota talvez nem seja perder alguém. Pode ser deixar-me perder a mim próprio atrás de uma ilusão.
E há qualquer coisa de quase injusto naquilo que escrevo depois.
Uma sentença imperdoável
a quem conspira contra o amor.
Desterro longo
de uma vida curta.
Leio estas palavras e percebo que ainda estou a tentar compreender aquilo que sinto. Talvez escrever seja a minha maneira de procurar essa voz calma que hoje não encontrei fora de mim.
Por enquanto, tenho apenas as palavras.
E tenho em mente.
Comentários
Enviar um comentário