Sou um velho idiota

Domingo, 2 de Abril de 1978

Sempre sonhei poder vir a ser astronauta. Talvez por isso não me seja difícil imaginar coisas como as de ontem. Basta começar a inventar e, quando dou por mim, já estou longe daqui, a viajar por lugares que só existem porque me lembrei deles.

Penso às vezes no dia em que for velho. Não é coisa que me entusiasme. Se pudesse escolher, talvez preferisse que a mãe-morte me levasse antes de chegar a esse ponto. Mas, se assim não acontecer, fico a pensar numa coisa ainda mais estranha.

Talvez um dia tenha filhos.

E talvez esses filhos, já crescidos, consigam navegar pela imaginação do pai e perceber que muitas das coisas que hoje me parecem apenas sonhos podem vir um dia a tornar-se realidade. O que agora invento sem dificuldade poderá, para alguém no futuro, ser uma coisa perfeitamente normal.

É curioso pensar que aquilo que hoje parece impossível pode deixar de o ser com o passar do tempo. Uma pessoa imagina, sonha, inventa e depois o tempo encarrega-se, às vezes, de fazer o resto.

«Sou um velho idiota», apetece-me dizer.

Mas, pelos vistos, ainda tenho de esperar muito para poder dizê-lo com propriedade. Ou talvez não tanto. Quem sabe?

O tempo tem as suas manias. Há ocasiões em que parece correr depressa demais e outras em que custa a passar. Infelizmente, também há momentos em que eu gostaria que ele parasse e ele continua, indiferente, como se nada tivesse acontecido.

Talvez seja essa a maior crueldade do tempo. Nunca pergunta se estamos preparados para aquilo que vem a seguir.



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