A liberdade que não existe

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Quinta-feira, 17 de Novembro de 1977

Vivo numa época histórica que ficará gravada na memória de todos quantos viveram e sentiram no corpo e na alma a democracia privada da liberdade que tão apregoada é.

Mais tem que dizer o povo trabalhador e desempregado, que, se tem alguma liberdade, é na sua casa arrendada com um mês adiantado, pois é aí que descansa as cicatrizes do dia-a-dia. Se sai fora de casa, é obrigado aos horrores que se lhe apresentam a par e passo.

É explorado no trabalho, no café, nos transportes, nos impostos, na renda, na mercearia, eu sei lá... Isto é uma vida às avessas. Nós comemos o pão que o diabo amassou e dormimos nas entranhas do inferno.

Quando penso naquilo que vejo à minha volta, não consigo aceitar que se fale tanto em liberdade quando, para tanta gente, ela parece resumir-se a muito pouco. Trabalhar, pagar impostos, suportar e voltar para casa. E amanhã tudo começa de novo.

A democracia está aí, dizem-nos, mas eu pergunto-me até onde chega essa democracia quando o homem continua preso às dificuldades de todos os dias. Que liberdade pode existir quando o trabalhador é explorado diariamente?

É esta a vida que vejo. Uma vida às avessas, onde aquilo que devia ser direito se transforma numa luta diária. E talvez seja por isso que sinto necessidade de escrever. Porque, pelo menos aqui, ninguém me pode impedir de pensar.


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