Entre o medo e a felicidade
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Domingo a Quarta-feira, 13 a 16 de Novembro de 1977
É verdade, Lina, amo-te tanto quanto se pode amar e dar amor. Não faria sentido escondermos os nossos sentimentos e guardá-los só para nós. Isso seria ser egoísta. Não me importo, no entanto, de ser egoísta por te querer só para mim.
Já te disse que te amava, dou-te todo o amor, mas, desculpa, creio que falta alguma coisa. Acredito sinceramente no teu amor e em ti. Que mais faltará?
Não sei. Talvez um melhor acolhimento da tua mãe.
Sou detestado e odiado pelas minhas ideias e, como que por causa delas, morrerei. Morrerei feliz porque isso acontecerá no meu elemento.
Receio, no entanto, morrer, não pelo medo da morte, mas porque serei privado de pensar e de viver os conflitos, os bons e os maus momentos, uma esposa, uma casa e filhos.
E talvez seja por pensar em tudo aquilo que ainda quero viver que o medo se torna mais forte. Há noites em que parece não haver maneira de fugir aos pensamentos. Em noites de trovoada, o ribombar dos trovões e a fúria incessante da tempestade lutam em vão com a minha sonolência, com o meu terror, com o meu medo.
Vejo que não estou só. Há aquele bicho horrendo que me persegue sem deixar rasto, sem rosto, sem se mostrar, mas eu sei que me persegue. Aquela imagem sem cara não me deixa.
Acéfalo, lamecha... de que vale, sim, de que vale eu importar-me com algo a que estou imune?
Mas tenho medo.
Medo inconstante, constante a cada segundo, de que lhe façam mal. Por cada dia que passa, sinto o chão a fugir de mim. Repelem-me e chamam-me. Sou uma bola que, sem trilho, anda à deriva, à deriva, sim, mas de si própria.
O ser humano é demasiado cruel e mesquinho. Não faz sentido naquilo que faz, e tudo o que faz tem graça ou é uma desgraça. É como um jogo de crianças jogado por adultos.
Nada.
É isso mesmo, nada, nada de nada.
Diz-se um ser evoluído. Em quê?
O homem não é nada. Se nada é, porque suporta tal título? O homem nada é porque nunca tentou ultrapassar-se a si mesmo.
E eu tenho medo. Não sou aquilo que pareço e quero morrer no meu medo.
Depois de tudo isto, o momento continua baço. Nada vejo para além dessa barreira (in)transponível. Já tomei a decisão de deixar o grupo coral, mas surgiram novos problemas, o que me vai obrigar a adiar mais uma vez.
E, como se isso não bastasse, os problemas da Lina também continuam. Ela tem problemas com a irmã porque ela me detesta e com a mãe porque lhe dizem mal de mim.
Nunca imaginei ter tantos inimigos. São inimigos que não mostram a cara.
Estou quase em crer que esses «inimigos» já pressentiram os meus sentimentos para com a Lina e estejam com inveja. Francamente, não os percebo. Os meus sentimentos não preciso de os esconder a ninguém, pois são puros e sinceros.
O «amor» é tão lindo!
Apesar de tudo, encontro-me com a Lina todos os dias. Chego a acompanhá-la a casa à noite e a estar com ela perto da uma hora. Não me canso.
Viver e amar são coisas tão simples e, por vezes, as mais simples são duras de alcançar.
Sou de acordo que a felicidade não se compra nem se encontra. Dá-se e recebe-se.
E eu e a Lina somos felizes.
Estarmos juntos responde a todas as perguntas.
Nestes dias passei do medo à tranquilidade e da inquietação à felicidade. Pensei na morte, senti-me perseguido por aquilo que não consigo ver, senti o chão fugir-me debaixo dos pés e deparei-me com dificuldades que parecem vir de todos os lados.
Mas, no meio de tudo isso, há uma coisa que permanece simples. Eu e a Lina estamos juntos.
Talvez seja essa a razão por que continuo a acreditar. Posso não compreender os inimigos, posso não saber como resolver todos os problemas e posso até ter medo daquilo que o futuro me reserva. Mas, quando estou com ela, encontro uma resposta para tudo aquilo que me atormenta.
E, por agora, isso basta-me.
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