A vida é uma armadilha

Terça-feira, 23 de Maio de 1978

Hoje escrevi sobre duas pessoas que parecem ter encontrado uma forma de felicidade. Olhei para elas de fora, quase com vontade de as deixar viver esse momento sem interferir.

Mas, à medida que escrevia, aquilo que parecia uma imagem simples foi-se transformando noutra coisa. Talvez porque continuo a pensar que a felicidade também pode ser uma armadilha, sobretudo quando a sociedade decide o preço que temos de pagar pelos nossos sentimentos.


Observem-nos, amam-se,
Embalam o fruto do seu amor
São três seres felizes
O terceiro é o elo de ligação entre ambos
Deixem-nos sonhar, que é viver
Pois a vida não dá alternativa
Tudo tem o seu preço
Fá-los-á felizes
Silêncio! Deixem-nos sonhar.
A vida é uma armadilha
A sociedade é o isco
E os sentimentos são a presa
Que sem fuga possível
Cai irremediavelmente
E não volta a levantar.
Deixemos que os sonhos os embalem
E os separem da vida acordada.
Deixemo-los viver a sua vida de sonhos
Não temos o direito de os acordar
Limpem esses corações empedernidos
E tenham dó
Pois não sabem o que fazem
Deixem-nos viver

Que o silêncio guarde, então, essa ilusão sagrada; porque quando o mundo insiste em ser armadilha, salvar um sonho é a única forma justa de proteger a vida.


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