Aquilo que sinto
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Segunda-feira, 31 de Outubro de 1977
Acabei de ver um programa que me sensibilizou muito. Havia uma pessoa que se divertia com o entusiasmo dos outros e que, pouco depois, se comovia até sentir um nó na garganta e um aperto no coração.
Fiquei a pensar nisso depois de o programa acabar.
Talvez porque reconheça em mim essas mesmas mudanças. Eu também consigo estar feliz num momento e, pouco depois, sentir uma inquietação que não sei explicar. Basta pensar na Lina para que isto aconteça. Quando estou com ela, esqueço muitas coisas, sinto-me bem, sinto que encontrei alguém que quero ter perto de mim. Mas depois, quando fico sozinho, começam novamente as perguntas.
Será que ela sente o mesmo?
Será que amanhã continuará a querer-me?
Será que aquilo que hoje me faz tão feliz pode acabar por me fazer sofrer?
Não gosto destas perguntas, mas elas aparecem. Por mais que tente afastá-las, voltam sempre. Talvez seja por isso que tenho andado tantas vezes desconfiado, mesmo quando nada de concreto tenho para desconfiar. Sei que isto pode parecer absurdo, mas não consigo mandar no que sinto.
E é por isso que começo a compreender que o amor não é só felicidade.
Eu queria que fosse. Queria poder estar com a Lina sem ter medo de a perder, sem pensar no que os outros dizem, sem procurar sinais nas palavras dela. Queria simplesmente gostar dela e ser feliz. Mas não consigo. Quanto mais gosto, mais sinto que tenho a perder.
Talvez seja essa a parte da emoção que me custa aceitar.
Quando não gostava assim, podia perder alguém sem sentir que perdia uma parte de mim. Agora é diferente. A Lina já ocupa um lugar dentro de mim e, por isso, qualquer possibilidade de a perder me incomoda. Às vezes basta uma coisa pequena para eu ficar mal disposto, para me fechar ou para começar a pensar demais.
Não pretendendo ser pessimista, começo a pensar que um grande sentimento tem mesmo de ser vivido com dor e alegria. Pelo menos é assim que eu o estou a viver.
Há dias em que estar com ela me chega para tudo. Um encontro, uma conversa, um beijo, até uma coisa sem importância pode deixar-me contente durante horas. Mas há também os outros momentos, aqueles em que fico sozinho e começo a imaginar coisas, aqueles em que tenho ciúmes, em que desconfio sem saber bem porquê, em que tenho medo de que aquilo que considero tão importante para mim não tenha para ela o mesmo significado.
Talvez seja como tudo o resto. O peixe não pode viver sem água, a ave sem oxigénio e eu, sendo racional, não consigo viver sem esta emoção a que ainda não me atrevo dar outro nome.
E quando escrevo isto, percebo que não estou a falar dos outros. Estou a falar de mim.
Eu preciso de sentir apego.
Preciso de sentir que alguém gosta de mim e que esse sentimento não é uma coisa que amanhã possa simplesmente desaparecer. Talvez seja por isso que tenho procurado tantas certezas na Lina. Quero que ela diga, quero que ela mostre, quero sentir que aquilo que existe entre nós é verdadeiro.
E, ao mesmo tempo, tenho medo de perguntar demais.
Há ainda outra coisa que me custa, as pessoas que não compreendem.
Infelizmente, há quem não veja isto ou pretenda não descobrir. Lembro-me de uma frase que ouvi um dia na rádio, num programa infantil:
“Batem-nos porque somos pequeninos”.
Fiquei com ela na cabeça.
Nós também somos pequenos aos olhos de muita gente. Somos adolescentes. Talvez por isso pensem que aquilo que sentimos não pode ser a "tal" emoção verdadeira. Talvez achem que ainda não sabemos o que queremos, que isto passa, que amanhã encontraremos outra pessoa e esqueceremos tudo.
Mas eu estou aqui e sei o que sinto.
Não sei o que vai acontecer amanhã. Não sei sequer se a Lina será aquela pessoa que ficará comigo durante muito tempo. Isso ainda não posso saber. Mas sei que aquilo que sinto agora é verdadeiro para mim.
Também temos o direito ao encantamento e de sermos encantados.
E dói quando os outros se metem no meio. Vêem maldade onde eu vejo afecto. Vêem afronta onde eu apenas quero estar junto de uma pessoa de quem gosto. Apontam-nos o dedo, julgam-nos e esquecem-se de que também já foram novos, também já tiveram alguém de quem gostaram e também já sentiram medo de perder.
Talvez tenham esquecido.
Eu não quero esquecer o que estou a sentir agora.
Mesmo que me faça sofrer.
Porque, se um dia olhar para trás, quero lembrar-me de que houve um tempo em que uma rapariga chamada Lina conseguiu fazer-me sentir isto tudo, felicidade, ciúme, esperança, medo, vontade de estar perto dela e, sobretudo, vontade de ser estimado por ela.
O meu caso não se separa destas emoções.
Afinal, quem somos nós?
Um rapaz e uma rapariga que se querem, ainda a tentar perceber o que fazer com essa ligação, enquanto outros olham, comentam e julgam.
Eu sei o que sinto.
E talvez seja isso que mais me revolta quando não me compreendem, não podem sentir por mim aquilo que eu sinto.
Não sabem o que é estar no meu lugar.
Não sabem o que é este apego pela Lina.
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