No alto do monte

 

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Domingo, 30 de Outubro de 1977

Este foi o melhor dia que passei com a Lina.

E não foram os seus beijos, nem sequer os nossos beijos, que fizeram deste dia o melhor. Não. Foi outra coisa, muito mais difícil de explicar e talvez por isso mesmo mais importante. Foi a tarde que passámos juntos, o lugar onde estivemos e a maneira como, durante aquelas horas, me senti.

Saímos com a irmã dela e o noivo e fomos visitar um sanatório que se encontra em degradação, completamente desolado e solitário, no cimo de um monte. Há qualquer coisa de estranho naquele lugar. Parece afastado de tudo, como se tivesse ficado para trás e ninguém mais se lembrasse dele.

Mas, lá de cima, a paisagem era extraordinária.

Podíamos ver montes e mais montes, durante muitas quilómetros. Via-se o mar, o Rio Douro, o Porto, S. Pedro da Cova. Era uma daquelas vistas que nos fazem ficar algum tempo calados, não porque não tenhamos nada para dizer, mas porque parece que qualquer palavra fica pequena diante daquilo que os olhos alcançam.

E havia o ar.

Sim, o ar, límpido e fresco. Respirava-se de outra maneira. Não havia o ruído constante da cidade. Os sons vinham de mais longe e pareciam pertencer àquele lugar, aves, coelhos, cães, caçadores. De vez em quando ouvia-se um tiro, seco, perdido no meio do monte. Mais longe, um carro passava e o seu ruído chegava até nós já diminuído pela distância.

Por vezes chegavam também vozes abafadas, poucas, de pessoas que se aproximavam. Depois os passos, calcando as miríades de vidros estilhaçados que ficaram espalhados pelo chão depois da primeira e última vaga de assaltos a este magnífico edifício.

Tudo aquilo dava ao lugar uma sensação estranha de abandono.

Um sanatório que já tinha conhecido outras pessoas, outros dias, talvez outras esperanças, estava agora ali, degradado e silencioso, no alto do monte. E nós caminhávamos por aquele espaço, vendo o que restava, ouvindo os sons dispersos que vinham de longe.

Houve momentos de silêncio entre nós. Mas não eram silêncios incómodos. Eu estava com a Lina e isso bastava.

Depois ouviu-se um estalido.

Por um instante pareceu-me quase o som de duas bocas que acabavam de se encontrar num beijo. Depois, novamente, o mesmo ruído.

Fiquei com aquela imagem.

Talvez porque naquele dia eu não precisasse dos beijos para me sentir feliz. Bastava-me a companhia dela, aquele lugar, aquela tarde diferente de todas as outras. Talvez o que me fez tão bem tenha sido precisamente termos estado juntos longe dos lugares e das rotinas habituais.

Foi uma tarde maravilhosa.

E hoje, ao escrever isto, percebo que há dias em que o que sinto não se mostra apenas naquilo que fazemos um ao outro. Às vezes está simplesmente na forma como nos sentimos ao lado de alguém, mesmo quando quase nada acontece.

Hoje senti-me bem com a Lina.

Muito bem.


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