À espera de tudo e nada

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Sábado, 29 de Outubro de 1977

A mãe da Lina aprendeu a não me “gramar”. Já não me surpreende, mas custa-me perceber até que ponto certas pessoas podem formar uma opinião sobre nós e depois agarrar-se a ela, como se nada do que fizéssemos pudesse mudar essa ideia.

Hoje faltei de propósito às aulas para ir ajudar a carregar lenha em casa da Lina. Era uma coisa simples, ou pelo menos assim a imaginei. Queria ser útil, estar presente, fazer alguma coisa que justificasse também a minha presença. No entanto, a ajuda acabou por não chegar a acontecer. A lenha não foi carregada e eu, que tinha deixado as aulas por isso, fiquei ali sem saber muito bem o que fazer.

Fiquei só, à espera de tudo e de nada.

Talvez seja esta a pior maneira de esperar, quando não sabemos exactamente o que esperamos, mas continuamos convencidos de que alguma coisa há-de acontecer. E, quando nada acontece, sentimos que o tempo que entregámos aos outros ficou perdido.

Dizem muito mal de mim. Isso também já sei. O que talvez não compreendam é que, por detrás de tudo aquilo que dizem, existe uma pessoa que sente. Posso parecer indiferente, posso responder, posso até fazer de conta que certas coisas não me atingem, mas não é assim. Sou sensível e sinto quando me fazem mal.

Não choro, porque para mim isso seria uma fraqueza. Talvez seja uma ideia errada, mas é assim que penso. Há coisas que prefiro guardar. Ficam cá dentro, acumulam-se, e depois basta pouco para que uma má disposição apareça sem que os outros percebam de onde veio.

A Lina foi quem veio ter comigo. Foi talvez o único momento em que aquela espera deixou de ser completamente vazia. Quando ela apareceu, já não fazia sentido continuar ali. Vim embora.

No fim da tarde ainda estive com ela.

E é curioso como, depois de um dia destes, basta estar com a Lina para que aquilo que me aborreceu durante horas pareça menos pesado. Não desaparece, porque sei o que aconteceu e continuo a pensar nisso, mas ganha outra dimensão. Talvez seja por gostar dela. Talvez seja porque, quando estou junto dela, não me sinto tão sozinho.

Mesmo assim, não consigo deixar de pensar nas aulas que deixei de ter e na razão pela qual o fiz. Hoje, pelo menos, a sensação foi amarga.

Faltei de propósito às aulas e, afinal, fiquei à espera de tudo e de nada.


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