As amizades vêem-se no funeral

Sábado, 4 de Março de 1978

É imperioso uma pessoa nascer, viver — muito ou pouco tempo — e depois morrer. É o que é.

Nós, os jovens, nem pensamos nisto. Andamos com as nossas coisas, com os nossos amores, com as nossas zangas, e a morte é uma palavra que não nos diz nada. Mas quando a idade pesa nos ombros e o fim se aproxima, o medo é tanto que daríamos a vida de outra pessoa para vivermos mais um pouco. E no fim, muitos, a maioria, chegam ao fim e não deram nada pela humanidade. Viveram, comeram, dormiram, morreram. É o que basta a muita gente.

É engraçado — e digo engraçado porque não encontro outra palavra — quando uma pessoa está longe da família, só, e às vezes doente, não vale a pena implorar pela presença de ninguém. Ninguém vem. Mas se morrer, aparece toda a gente. A família que não vinha, os amigos que não apareciam, gente que nunca se viu. Vêm todos.

A vida é assim. As amizades vêem-se no funeral. Os verdadeiros amigos não aparecem.

Agora no quarto, a escrever isto antes de me deitar, não me apetece nada estar aqui a pensar na morte. Não é medo de morrer. É outra coisa. É a ideia de que, se me acontecesse alguma coisa hoje, quem viria? E quem não viria? Fico com esta pergunta e não tenho resposta para ela. Talvez não haja resposta. Talvez seja só uma pergunta que fica.

Não sei porque me lembrei disto hoje. Há dias em que a cabeça vai por sítios onde não devia. Hoje foi um deles.


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