Um lago de águas serenas

Sexta-feira, 3 de Março de 1978

A minha vida continua a ser a mesma. Tem altos e baixos, mas não deixa de ser a mesma. Hoje foi um dia baixo, sem razão nenhuma para o ser. Não aconteceu nada. Não a vi, não fiz nada de especial, não me aconteceu nada de mal. E no entanto andei o dia todo com um peso que não sei de onde vem.

À tarde, sentei-me no quarto e pus-me a imaginar. Gostava um dia de me sentar à beira de um lago parado, sem nada para fazer, a ouvir o som da floresta e o tinido das aves. Sentir o cheiro forte da vegetação, e adormecer junto a um riacho, por baixo do arvoredo. Não pensei nisto por acaso. Pensei porque me apetecia estar noutro sítio que não aqui.

Sonhar é fácil. Penetro fundo no mundo dos sonhos, sinto-me leve, voo para além da bruma e vou de encontro ao sol. Depois volto ao meu mundo, e encontro-me só com a minha Eva. Seríamos nós, os dois, o fruto de uma nova humanidade, uma humanidade em que seríamos os pais e os nossos sucessores os filhos. Seria este o nosso primeiro acto e o primeiro pecado.

Depois acordei. Deveria levantar-me e lavar a dignidade humana, como quem lava a cara de manhã. Mas não me apeteceu. Fiquei ali, sentado, com a imagem do lago na cabeça, e a Eva que não está comigo.

Não sei se estou a falar de uma coisa real ou de uma coisa que inventei. Provavelmente é as duas. Hoje não me apetece distinguir.


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