Quando falo com ela fico pendurado

Quinta-feira, 2 de Março de 1978

Hoje ia telefonar-lhe. Ia mesmo. Tinha decidido, e ia.

Não foi preciso.

Encontrei-a. Não sei se foi sorte, se foi acaso, se foi o contrário do que ando a fazer. Sei que a vi, e que ela me viu, e que ficámos os dois ali parados durante um segundo antes de dizermos alguma coisa. Depois falámos.

Fiquei contente. Não é uma palavra que use muitas vezes, mas é a certa. Fiquei contente por a ver e por falar com ela.

E depois estraguei tudo. Disse banalidades como nunca. Falei do tempo, das cheias, não sei de quê. Estava nervoso e quando estou nervoso dou pouco ou nenhum sentido àquilo que digo. As palavras saem-me tortas, e eu ouço-me a dizê-las e não me reconheço. Não quis perder um minuto sem a ver. Olhei para ela com atenção, a sério, como quem está a guardar uma coisa. Estava bela, bela daquela maneira que só as mulheres sabem estar, sem fazer nada de especial. Disse-lho. Ficou lisonjeada e acho que corou, mas não tenho a certeza porque estava com pouca luz.

Despedimo-nos com um beijo. Foi o beijo da aliança dos corações. Não sei explicar melhor.

Depois vim para casa a pensar no que devia ter dito, e não disse. É sempre assim. Quando estou com ela, fico pendurado. Fico entre o que quero dizer e o que consigo dizer, e no meio disso passa o tempo, e ela vai-se embora, e eu fico com as palavras todas na boca.

Sinto-me bruto ao pé dela. Ela é gentil e maravilhosa, e eu sou isto, um rapaz que não sabe estar, que fala do tempo quando devia falar do que sente. E no entanto amo-a. Amo-a desde o primeiro dia, e continuo a amá-la, e não sei o que hei-de fazer com isso.

Talvez não seja para fazer nada. Talvez seja só para sentir.


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