Cheias no Douro
Quarta-feira, 1 de Março de 1978
Cheguei a casa do liceu eram onze e vinte da noite. Cinco horas de viagem para um percurso que normalmente se faz em trinta e cinco minutos.O temporal não deu tréguas durante a noite. O Douro galgou as margens e as estradas ribeirinhas ficaram debaixo de água. Em alguns sítios, dizem, a água subiu dezassete metros acima do normal. Só para chegar à paragem já tinha molhado os sapatos duas vezes e a camisa colada às costas. O trólei que apanhei ficou parado entre duas paragens mais de uma hora. Quando finalmente se pôs em marcha, ia devagar, aos solavancos, com as pessoas todas encostadas umas às outras, de pé, molhadas, com os sacos a pingar. Havia quem resmungasse, havia quem se risse, havia quem dormisse de pé. Eu fui dos que se riram primeiro e dos que se calaram depois.
A princípio ainda achei graça. Comentámos as cheias, as ruas transformadas em rios, os carros parados com a água pelos faróis. Havia um homem ao meu lado, de gabardina e chapéu de chuva, que dizia que já tinha visto isto em 1962 e que agora era pior. Contou-nos a história toda, com detalhes, e nós ouvimos. Havia uma mulher com um cesto de compras que dizia que ia chegar tarde ao trabalho e que não sabia como voltava para casa. Havia um rapaz novo, da minha idade ou pouco mais, que não dizia nada e olhava para a chuva que caia do lado de fora como se aquilo não fosse com ele.
Depois lembrei-me de que tinha de telefonar à Lina e a disposição mudou-me de uma vez. Fiquei calado o resto da viagem, a olhar para a chuva pela janela, a contar os minutos que faltavam para chegar e os que faltavam para a hora a que ela costuma estar em casa. Havia ali qualquer coisa de errado, e não era o rio.
Cheguei a casa atrasado, mas cheguei.
O trólei não passou do Alto da Serra, ainda tentei apanhar o trólei para a Covilhã. Não consegui. Vim a pé pelo monte, com o vento a bater de lado. Quando cheguei a casa, estava completamente molhado e cansado como não me lembro de estar. Jantei e recolhi-me.
No sossego do meu quarto ainda estou com a chuva na cabeça. Não é a chuva que me incomoda, é o que eu não fiz. Passei cinco horas preso num trólei, com tempo de sobra para pensar, e no fim cheguei a casa e não telefonei. Sinto que deixei passar uma coisa que era minha para fazer. Amanhã talvez telefone. Mas já disse isto ontem, e no dia anterior. Estou a começar a achar que o problema não é o telefone. É a mão que não se levanta.
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