Prólogo - Março de 1978

O tempo começa a afastar-nos

Fevereiro acabou com um telefone que tocou e ninguém atendeu. Março começa com o Douro a transbordar.

Há uma simetria nisto que não foi planeada, mas que serve bem ao que vem. Um mês fechou-se com um gesto suspenso, a mão que levanta o auscultador e desiste. O outro abre-se com uma força que ninguém controla, a água a subir, as estradas a desaparecer debaixo dela, a vida a reorganizar-se por cima do que ficou submerso. Fevereiro foi um mês de decisões que não se tomaram. Março vai ser um mês de coisas que acontecem sem que ninguém as decida.

O António ainda não sabe isto. Continua a pensar que o mês que vem depende dele, de um telefonema, de uma palavra dita a tempo, de uma coragem que ele julga que vai ter amanhã. É isso que o torna tão reconhecível. Ele acredita que o futuro é uma coisa que se prepara, quando na verdade é uma coisa que nos cai em cima. E cai sempre de onde menos se espera.

Março vai trazer-lhe pessoas novas e velhas. Vai trazer-lhe conversas que o obrigam a olhar para trás, para coisas que ele fez e que ainda não pagou. Vai trazer-lhe dias em que ele se sente grande, e outros em que se sente pequeno, e outros ainda em que não sente nada de especial, que são talvez os mais difíceis. Vai trazer-lhe a casa, outra vez, com as suas regras antigas e as suas feridas antigas. Vai trazer-lhe o Manel, o Victor, os colegas, a escola, o karaté. Vai trazer-lhe a Lina, de longe, de perto, de maneiras que ele não está à espera.

E vai trazer-lhe uma coisa que ele ainda não sabe o quê, a percepção de que o tempo não pára para ninguém. Fevereiro ensinou-lhe que o amor não se governa. Março vai ensinar-lhe outra coisa, que a vida continua a acontecer mesmo quando ele está parado à espera. Que as cheias vêm, que as pessoas passam, que os dias se sucedem, e que ele, no meio de tudo, tem de decidir se fica a olhar para a água ou se aprende a nadar.

Não vou dizer o que vem. Não porque não saiba, sei, e o leitor também vai saber, a seu tempo. Mas porque a graça deste mês está exactamente nisso, em não saber. O António não sabe. Nós, que olhamos de fora, também não devíamos saber. O futuro é uma porta que se abre devagar, e cada dia é uma fresta. Forçá-la seria estragar o que ela tem de melhor.

Março começa agora. O rio está cheio. O telefone continua no corredor. E o António, como sempre, está à espera de uma coisa que ainda não aconteceu.


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