As portas que se fecham

Quinta-feira, 30de Março de 1978

Hoje andei com o meu pai à procura de emprego para mim.

É imperativo uma pessoa trabalhar, agora mais do que nunca. O país atravessa uma crise que se pode comparar com a de um país no após-guerra. Mas, se quiser ser optimista, num país no após-guerra há uma crise e há uma tendência para a sanar. O que se passa connosco é o contrário, a crise começou e o custo de vida sobe a uma velocidade que faz enlouquecer. Não há maneira de se ver o fim. Se é que tem fim.

Fomos a vários sítios. Mal nos pressentiam, fechavam a porta. Não é uma maneira de falar. Fechavam a porta. Um rapaz que precisa de começar, e a resposta é a porta na cara. Não é normal que isto aconteça. E, no entanto, acontece. Muitas fábricas fecharam. Muitas oficinas fecharam. As pessoas que lá trabalhavam estão na rua, à procura, como nós.

Voltei para casa cansado, e não foi do caminho. Foi de bater a portas que não abrem.

Fico a pensar no futuro e não vejo nada. Não é que não veja o que quero, é que não vejo nada de todo. A escola vai acabar, o trabalho não aparece, e o país está assim. Não sei o que vou fazer. Não sei o que vou ser. E, no meio disto tudo, ainda há a Lina, que é outra porta que não sei se abre.

Hoje bati a portas que se fecharam. Amanhã, se o meu pai quiser, volto a bater.




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