Violência não é Karaté
Sexta-feira, 31 de Março de 1978
Hoje, na Academia, um colega meu ficou muito machucado num combate com o instrutor.Foi durante o treino. Estávamos todos a ver. O instrutor atacou com uma violência que não era de treino, era de outra coisa. O colega cuspiu logo sangue pela boca e foi levado para o hospital. Ficou tudo parado durante uns segundos, e depois o treino continuou como se nada fosse.
Presenciei o ataque. E, no momento, achei graça. Achei graça porque ele já se tinha magoado outras vezes, e porque há uma coisa na Academia que faz com que a dor dos outros pareça normal. Só depois é que percebi a gravidade. Só depois é que vi o sangue no chão e percebi que aquilo não era treino. Mas, mesmo assim, não mudei de opinião. Não tomei posição, como alguns colegas tomaram. Fiquei calado.
É por estas e outras razões que o Karaté é mal visto pelas pessoas. As aparências iludem, e não se deve julgar uma coisa só porque teve um aspecto negativo, ou pelo que contam. É o que digo a mim mesmo. Mas, esta noite, ao escrever isto, não estou certo de que seja verdade. Acho que estou a defender uma coisa que não devia defender. Acho que estou a ser leal a um sítio que não merece a minha lealdade.
Não sei o que fazer com isto. Sei que amanhã volto à Academia. Sei que vou ver o instrutor outra vez, e o colega, se voltar. Sei que vou continuar a treinar, porque o Karaté é a única coisa constante na minha vida, a única que não depende da Lina, nem da família, nem das portas que se fecham. E é por isso que não quero olhar para o que se passou hoje. É por isso que não quero tomar posição.
Hoje vi um homem cuspir sangue e não fiz nada. Amanhã, se puder, esqueço-me disto.
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