Epílogo - Março de 1978

A chama que se julgava apagada

Março começou com o Douro em cheia e um trólei preso entre duas paragens. Acabou com um homem a cuspir sangue num tatami e um rapaz calado a ver. No meio, houve trinta e um dias que ninguém governou, nem ele, nem o rio, nem o país.

Foi um mês de esperas que não deram nada. Ele esperou pela Lina e não a encontrou, esperou por um telefonema e não o fez, esperou por uma promessa de emprego e as portas fecharam-se. Março ensinou-lhe uma coisa que Fevereiro ainda não tinha ensinado, que há esperas que não têm fim, e que uma pessoa pode ficar muito tempo parada à espera de uma coisa que não vem.

Mas houve outra coisa neste mês, e essa foi mais funda. Sem que ninguém a chamasse, sem que nada a anunciasse, a Dila voltou.

Não voltou em pessoa. Não houve encontro, não houve conversa, não houve uma única palavra trocada. Voltou nos ecos. Num dia em que ele ia disposto a acabar tudo com a Lina, e se lembrou, sem querer, do dia em que tinha acabado tudo com a Dila. Numa conversa com o Manel sobre castidade, em que a dúvida que ele tinha sobre a Lina se misturou com a dúvida que ele nunca teve sobre a Dila. Num poema em que ele escreveu sobre uma mulher que se dá e não se vê, e que podia ser a Lina. Na reflexão sobre a perfeição e a cópia, em que ele se perguntou se não estaria a repetir uma história que já tinha vivido.

Ela não esteve lá. E, no entanto, esteve. E o que surpreendeu o António não foi a lembrança, foi a força dela. Ele julgava que aquela chama tinha esmorecido. Julgava que a Dila era um capítulo fechado, uma rapariga do passado, uma história que ele tinha deixado atrás. E, de repente, sem aviso, percebeu que não. Que a chama continuava viva, debaixo das cinzas, e que bastava um sopro para a acender outra vez. Foi isso que o desassossegou, não a presença dela, mas a sua própria incapacidade de a esquecer.

E é aqui que Março se torna diferente de Fevereiro. Em Fevereiro, o inimigo era a ausência da Lina. Em Março, o inimigo é o que ele traz dentro de si sem saber, a memória de uma coisa que ele fez e nunca pagou, e o medo de a repetir. A Dila não voltou para o acusar. Voltou porque nunca saiu. E ele, ao escrever todos os dias, foi percebendo que estava a falar dela mesmo quando falava de outra. Que o silêncio à volta do nome dela era mais alto do que o nome.

No fim do mês, ele está no mesmo sítio onde começou, à espera, sem saber de quê. Mas a água não baixou. O rio voltou ao leito, mas a cheia que subiu por dentro dele continua lá, e ele ainda não aprendeu a nadar. O que ele aprendeu foi a escrever sobre a água enquanto ela sobe, e a perceber que, debaixo da água, há uma chama que ele julgava apagada e que continua a arder.


 

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