Cheio de pena de mim
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 1977
Ontem deitei-me a pensar e hoje levantei-me a pensar no mesmo.
De manhã, queixo sobre o peito, cabisbaixo, muito longe a pensar, a sofrer baixinho. Por fora, talvez ninguém percebesse o que se passava comigo. Mas cá dentro era diferente. O pensamento voltava sempre ao mesmo ponto, como se não encontrasse maneira de sair dali.
Só o coração sabia. E a sua fotografia, o seu sorriso, as mesmas faces, o mesmo pensamento. Bastava olhar para a fotografia para voltar a sentir tudo outra vez. O que tinha acontecido na véspera ainda estava demasiado presente e eu não conseguia afastá-lo, por mais que tentasse.
A solução foi falar-lhe.
Foi assim que se desfez o mal-entendido. Falar com ela foi diferente de ficar sozinho com aquilo que eu pensava. Algumas coisas que na minha cabeça pareciam tão complicadas puderam afinal ser esclarecidas quando as pusemos em palavras.
O que ela me disse, o que íamos fazer e, por fim, um entendimento e um pedido de tréguas.
Assim será?
Talvez seja mesmo preciso falar antes de tirar conclusões. Ontem parecia-me que tinha estragado tudo e hoje já consigo respirar um pouco melhor. Não sei quanto tempo durarão estas tréguas, nem se amanhã voltarei a ter as mesmas dúvidas. Mas, pelo menos por hoje, ficou qualquer coisa no seu lugar.
E talvez seja isso que eu precise de aprender, nem tudo aquilo que parece perdido está realmente perdido. Às vezes, basta duas pessoas conseguirem falar uma com a outra para que aquilo que parecia tão grande deixe de o ser.
Hoje fico mais sossegado.
Amanhã logo se verá.
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