Começa a fechar-se o cerco
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Sábado, 26 de Novembro de 1977
Mais uma triste notícia.
A Lina foi proibida pela mãe de me ver e de falar comigo.
No fundo, esta notícia não me surpreendeu. Já a esperava. Depois de tudo o que acontecera nos últimos dias, depois das objecções dos pais e daquela situação de terça-feira, era difícil acreditar que as coisas pudessem continuar como antes. O cerco vinha-se fechando pouco a pouco e hoje chegou mais perto.
Por isso digo que não me perturba.
Mas dizer que uma notícia não me perturba não significa que me deixe indiferente. Há coisas que espero e que, quando finalmente acontecem, me atingem de uma maneira diferente. Talvez porque, enquanto permanece apenas como possibilidade, ainda existe a esperança de que não aconteça.
Agora aconteceu.
Já não se trata apenas de tornar os nossos encontros mais difíceis. Já não são somente os momentos ao meio-dia que desapareceram, nem a necessidade de ter cuidado quando vou esperá-la. A proibição é mais clara e mais dura. Não podemos ver-nos. Não podemos falar.
E, no entanto, aquilo que mais me preocupa não sou eu.
É a Lina.
É por ela que temo.
Não sei como recebeu esta ordem, nem o que poderá sentir perante uma decisão que não partiu dela. Talvez para mim seja mais fácil suportar aquilo que me está a acontecer porque já vinha a preparar-me para isso. Eu sabia que isto podia acontecer. Ela, porém, terá de viver essa situação dentro da própria casa, perante a mãe e perante tudo aquilo que lhe é imposto.
Parece que estou a regressar ao passado, onde isto já aconteceu.
E é isso que me inquieta.
Posso aceitar que me afastem dela. Posso sentir a revolta, a frustração e até a impotência de não poder fazer aquilo que gostaria. Mas custa-me pensar que ela possa estar a sofrer por causa disso.
Até aqui, ainda encontrávamos maneiras de estar juntos sempre que podíamos. Agora parece que cada possibilidade se fecha diante de nós.
O cerco começa realmente a fechar-se.
E, desta vez, não temo apenas aquilo que isto possa fazer comigo. Temo aquilo que possa fazer com ela.
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