A história de Simão
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Domingo, 27 de Novembro de 1977
Sabem quem é o Simão?
Não, claro que não sabem.
Bem, eu explico.
Simão é “alguém” que não sabe quem é. Vive por viver, faz aquilo que vê os outros fazerem e, por isso mesmo, acaba por ser a imagem de toda a gente e, ao mesmo tempo, de ninguém.
Talvez seja estranho falar de uma pessoa que não sei sequer definir. Mas Simão existe precisamente nessa indefinição. Tem a fisionomia de cada um de nós e não parece inteligente. Se olharmos para ele apenas por aquilo que mostra, vemos alguém despreocupado, sem problemas visíveis, vivendo os seus dias sem grandes perguntas.
Mas basta reparar melhor.
Simão e “nós” não somos assim tão diferentes.
Ele parece não ter problemas porque não os procura, ou porque talvez não queira vê-los. Nós temos problemas, sabemos que os temos e, muitas vezes, não os resolvemos. Talvez até porque gostamos de os ter. Há qualquer coisa de estranho no ser humano que, por vezes, parece levá-lo a conservar aquilo que o incomoda, como se o próprio sofrimento pudesse tornar-se uma espécie de hábito.
Simão não complica.
Vive.
Faz o que os outros fazem.
E segue em frente.
Talvez seja precisamente por isso que ele possa ser a imagem de toda a gente. Porque há momentos em que todos nós fazemos aquilo que vemos os outros fazerem, pensamos aquilo que os outros pensam e seguimos caminhos que nem sequer escolhemos verdadeiramente.
Simão viveu algures, não sei onde.
Agora mora com o destino.
É como se tivesse entregue a esse destino aquilo que outros tentam controlar. Nas mãos tem a balança da vida e da morte e conserva sempre um ar de indiferença. A morte não o assusta. Talvez porque quem vive sem saber muito bem quem é também não saiba exactamente aquilo que tem a perder.
A vida de Simão pode resumir-se em três palavras.
Nasceu.
Cresceu.
Sofreu.
Fácil de ver, não?
Talvez demasiado fácil.
E talvez seja precisamente essa a razão por que hoje comecei a contar a história de Simão.
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