O mesmo céu

 

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Segunda-feira, 28 de Novembro de 1977

Mais um dia de esperança.

É estranho como, depois de tudo o que aconteceu, ainda possa existir esperança. Ontem escrevi sobre Simão, alguém que vive por viver, sem saber muito bem quem é. Hoje volto a mim próprio e percebo que não consigo viver dessa maneira. Tenho problemas, tenho obstáculos e tenho diante de mim coisas que não consigo resolver, mas continuo a esperar.

Talvez porque ainda exista a possibilidade de um encontro.

Um encontro apenas.

Duas vidas que procuram encontrar-se, mesmo quando há quem queira impedir que isso aconteça. Duas pessoas, o mesmo amor, a mesma paixão, e também o mesmo inimigo. Quanto mais difícil se torna estarmos juntos, maior parece ser a vontade de vencer aquilo que nos separa.

Há qualquer coisa de contraditório nisto tudo. De um lado, mais ódio, mais oposição, mais dificuldades. Do outro, mais vontade de viver, de resistir e de não deixar que os outros decidam completamente aquilo que deve acontecer connosco.

É também uma questão de dignidade.

Não quero baixar a cabeça perante aquilo que considero injusto. Não quero transformar-me numa pessoa que aceita simplesmente aquilo que lhe impõem sem sequer tentar compreender o que está a acontecer. Talvez não possa fazer muito. Talvez nem sequer saiba ainda o que poderia fazer. Mas sei que não quero desistir.

Continuamos no mesmo mundo.

Debaixo do mesmo céu.

O adversário parece estar sempre presente, como se estivesse à nossa volta e até no fim do mundo. Mas talvez o mundo acabe precisamente onde outro começa. Aquilo que parece ser o fim de alguma coisa pode ser apenas o princípio de outra.

O mundo acaba onde começa.

Escrevo isto e sei que talvez nem eu próprio consiga explicar completamente aquilo que quero dizer. Há pensamentos que parecem claros quando estão dentro de nós e que se tornam difíceis de transmitir quando passam para o papel.

Por isso, a recomendação que dou a mim mesmo é: se depois de leres não compreenderes, então volta a ler.


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