Volta a ler
Terça-feira, 29 de Novembro de 1977
Gosto muito de escrever e de imaginar, de sonhar. Talvez porque, quando escrevo, possa dar forma a coisas que dentro de mim aparecem de maneira confusa, ligando umas às outras ideias que, para quem está de fora, talvez não tenham qualquer ligação.
Às vezes penso que, se alguém lesse aquilo que escrevo, ficaria a perceber o mesmo que eu percebo. Mas depois começo a duvidar.
Uma coisa é aquilo que pensamos e sentimos enquanto as ideias estão dentro de nós. Outra é passá-las para o papel e esperar que alguém, ao lê-las, consiga chegar exactamente ao mesmo lugar. Talvez muitas das coisas que escrevo só façam sentido para mim, porque conheço aquilo que está por detrás das palavras e sei de onde vieram certos pensamentos.
Por isso, se algum dia alguém lesse o meu diário, talvez tivesse de lhe deixar uma indicação logo no princípio de cada página.
Escreveria uma nota a dizer que, para ser compreendido aquilo que está escrito, seria necessário ser paciente e ler duas ou três vezes.
Não porque queira tornar as coisas difíceis, mas porque há pensamentos que não se entregam logo à primeira leitura. Há frases que parecem simples e que escondem outra coisa. Há outras que talvez nem eu consiga explicar completamente.
E no fim da página deixaria apenas uma pequena frase.
Volta a ler.
Talvez seja essa a melhor maneira de entender aquilo que escrevo.
Ou talvez seja apenas a minha maneira de dizer que nem tudo aquilo que penso cabe numa primeira leitura.
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