Divagações sobre a vida

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Quarta-feira, 30 de Novembro de 1977

Hoje fiquei novamente a pensar na vida e nesse longo percurso que todos fazemos, muitas vezes sem sabermos muito bem para onde vamos.

Ao longo desse percurso deparam-se-nos tantas visões, tantas situações, tantas maneiras diferentes de olhar para as mesmas coisas, que noventa por cento das vezes nem sequer sabemos interpretá-las pelo lado certo. Aquilo que para uns parece evidente, para outros pode não significar absolutamente nada. E talvez seja precisamente aí que esteja uma das maiores dificuldades da vida.

A vida é um segredo.

Um segredo que vamos tentando desvendar à medida que avançamos, embora talvez nunca consigamos chegar verdadeiramente ao fim dessa descoberta. Pensamos que compreendemos uma coisa e, pouco depois, aparece outra que nos obriga a repensar tudo.

Mas há pessoas que vivem a vida de outra maneira. Vivem-na e desfrutam da liberdade de deduzir, de pensar e de agir. Não aceitam necessariamente tudo aquilo que lhes apresentam como verdade. Observam, procuram compreender e tiram as suas próprias conclusões.

É essa liberdade que me interessa.

O que me preocupa é precisamente o contrário.

O Infinitamente grande, quando deturpado, é para muitos aquilo a que chamam “Deus”, como se fosse um “algo” que tudo fez e criou. A partir daí, um enorme manancial humano acaba por cair naquilo que eu entendo por obscurantismo. Cria-se uma obsessão à volta de qualquer coisa que não existiu ou existe, e essa obsessão passa depois a justificar quase tudo.

E quando uma ideia deixa de poder ser discutida, quando deixa de ser possível pensar de maneira diferente, começam os problemas.

Surgem o divisionismo, a chantagem e a centralização das ideias. Uns passam a acreditar que possuem a verdade e procuram convencer os outros de que só existe uma maneira certa de pensar. Quem não aceita essa maneira de pensar fica de fora, é afastado, pressionado ou tratado como alguém que está errado simplesmente por não seguir o mesmo caminho.

Já vivi isto numa outra vida recente.

É isto que não compreendo.

Como pode uma ideia que pretende explicar tudo acabar por impedir as pessoas de pensar?

Como pode aquilo que deveria levar o homem a procurar respostas transformá-lo numa pessoa incapaz de fazer perguntas?

Talvez seja por isso que considero tudo isto tão perigoso. Não é apenas acreditar ou não acreditar. É deixar que alguém pense por nós e depois aceite que as suas ideias são as únicas verdadeiras e certas.

Eu prefiro a dúvida.

Prefiro poder pensar, deduzir e agir por mim próprio, mesmo que erre. Pelo menos o erro será meu e não o resultado de alguém me ter dito aquilo que devo pensar.

No longo percurso que é a vida, talvez nunca consigamos desvendar completamente o segredo. Mas isso não significa que devamos deixar de procurar.

Caramba, é tempo de parar com isto.

E talvez seja também tempo de começar a pensar por nós próprios.


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