Divagações sem rumo
Sábado, 6 de Maio de 1978
Hoje fui com o meu pai a uma oficina. Ele precisava de arranjar a motorizada e eu fui com ele, para não ficar em casa.
Enquanto esperávamos, fiquei a ver os carros que estavam ali. Havia um carro novo, grande, brilhante, de um homem que estava de fato e gravata, e havia carros velhos, amolgados, de gente que esperava como nós. Fiquei a olhar para aquilo e percebi uma coisa que nunca tinha pensado: um carro, hoje, é um símbolo de riqueza. Não é um objecto — é uma declaração. Diz quem o homem é, ou quem quer ser.
O meu pai tem uma motorizada. Não é um carro. Não é uma declaração. É o que ele pode ter.
À noite, no silêncio do meu quarto, deixei que a minha mente extravasasse para o papel:
Tudo tem um preço e a vida é o preço mais alto que se pode pagar.
Não sei a qual se dará mais apreço, se ao corpo ou à alma, isto é, se alma existe, não se separa do corpo.
O homem é um jogo de peças que se constrói por mãos habilidosas.
Esses "santos curandeiros", misteriosos mentores do universo, não se servem de filosofia nem de matemática.
Já o homem primitivo, conseguia sem saber como, claro está sem ligar ao acto.
Um carro, actualmente, é um símbolo de riqueza. Os homens de outrora eram os seus feitos que validavam a sua existência e o seu poder, os homens das cavernas eram as suas cicatrizes.
Não sei se faz sentido o que escrevi. Quando comecei, era sobre o carro que vi. Depois passou a ser sobre outra coisa. Sobre o preço das coisas. Sobre o que vale um homem — se o que tem, se o que fez, se o que é. O meu pai não tem um carro. Mas tem cicatrizes, tem feitos, tem uma vida. E, no entanto, aos olhos do mundo, vale menos do que o homem do carro brilhante.
Fico com isto e não chego a conclusão nenhuma. Talvez não haja conclusão. Talvez seja só uma coisa que se pensa e se deixa ficar.
Amanhã volto à oficina, se o meu pai precisar. E volto a ver os carros, e volto a pensar no que eles dizem e no que eles escondem.
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