Divagações sobre o ódio

Sexta-feira, 5 de Maio de 1978


Hoje passei pelo centro da cidade. Não tinha nada para fazer, e fui a pé, sem destino.

Vi coisas que não costumo ver. Vi um homem a ser posto na rua por dois polícias, num prédio velho, no fim de uma rua. Não sei o que tinha feito, nem se tinha feito alguma coisa. Vi um grupo de rapazes a rir de um velho que pedia esmola à porta de uma igreja. Vi uma mulher a discutir com o filho, a gritar-lhe que ele não prestava, ali à frente de todos. Vi um cartaz de uma fábrica que fechou, com uma lista de nomes à porta.

Andei por ali, a ver, sem me meter. E depois vim para casa, e à noite, quando me sentei a escrever, senti-me inspirado:

Cães raivosos, senhores do poder que mordem fundo, como o ódio que por eles nutro.

Fruto de uma sociedade podre, canibais que sugam o sangue a nós, povo.

Nós, miseráveis que nos subjugamos a ti, carrasco que nos arrancas os olhos para não vermos o ódio e a raiva de és possuído.

Mas qual é o direito que têm para nos julgarem? Quem sois vós?

Ninguém! Não sois nada que possa corroer a nossa unidade e a nossa liberdade.

Fora! Fora carecas sociais, excrementos da sociedade. Chegou o momento da vitória, chega de horrível visão, acabemos com a podridão.

Escrevi sem intenção de corrigir, pois era o que sentia. Quando acabei, reli, e percebi que não é sobre o que vi hoje. É sobre tudo que vi ao longo da vida — os que mandam, os que julgam, os que olham para o povo como se fosse gado. É sobre o que eu sinto quando vejo isto e não posso fazer nada.

Escrevi "Fora!" como se pudesse. Mas não posso. Não tenho poder nenhum. Sou um rapaz de dezoito anos que escreve fechado num quarto à noite. E, no entanto, escrevi, e senti-me melhor.

Amanhã voltarei a passar pelo centro, e se calhar voltarei a ver o mesmo. Voltarei para casa e escreverei o que me for na mente. Não sei se isto serve para alguma coisa. Sei que é o que faço.


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