Prisioneiro em mim

Quinta-feira, 4 de Maio de 1978


Hoje passei muito tempo à janela do quarto.

Não é uma coisa que eu faça. Mas hoje não me apeteceu sair, não me apeteceu ler, não me apeteceu fazer nada. Sentei-me ali, encostado ao caixilho, a olhar para fora. Vi o sol a entrar, vi as pessoas a passar, vi as aves a voar.

Foi aí que escrevi:

Sou um prisioneiro, nada mais tenho, que estas grades que me sustêm e me retêm o olhar para além do muro da minha cela.

De manhã, o sol difuso e como que temendo, penetra deixando uma réstia de luz na minha cela e depois parte.

Sento-me quedado a olhar a esperança que não chega. Observo o voo das aves, livres num céu livre, e desejo poder um dia desfrutar da sua liberdade.

A Primavera chega-me aos ouvidos pelo trinado das aves e pelos odores da natureza.

Por vezes julgo vislumbrar uma flor no bico de uma ave que passa e julgo ser a liberdade que se avizinha para me libertar dos grilhões que me prendem.

Mas não, é apenas uma ave que passa com a felicidade no bico para construir o seu lar.

Depois de escrever fiquei a pensar. Sou prisioneiro, mas não sei de quê. Não há grades, não há muro, não há cela. Há uma coisa dentro de mim que me prende, e é essa que eu sinto. Prisioneiro em mim — é o que sou. Não há ninguém a segurar-me. Sou eu que me seguro.

A ave passa com a felicidade no bico e vai construir o seu lar. Eu fico aqui. Não tenho nada no bico. Não tenho para onde ir. Não sei se a liberdade existe, ou se é só uma coisa que eu julgo ver nas aves e nas pessoas e que nunca chega.

Amanhã volto à janela. Talvez passe outra ave. Talvez eu julgue outra vez.


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