Uma pedra, um destino
Quarta-feira, 3 de Maio de 1978
Hoje encontrei uma pedra no caminho.
Ia a subir, a caminho de casa, e vi-a ali. Uma pedra pequena, rolada, gasta. Devia ter vindo de algum sítio, arrastada pela chuva, pelas botas de quem passa, pelos anos. Fiquei a olhar para ela e não sei porquê. É uma pedra. Há milhares na estrada. Mas fiquei.
Ao fim do dia, sentei-me a escrever:
Encontrei no caminho uma pedra
que era o meu destino, rolada, gasta.
Era uma pedra no caminho.
Encontrei no caminho uma pedra,
uma pedra no caminho,
uma pedra.
Nela, todo o meu ser,
envolto numa nuvem de pó de há longos anos,
jogada na estrada, uma pedra.
Essa pedra era eu.
Dura, resistente, pequena, rolada e só,
no meio de tantas outras,
no caminho.
Cristalizada, solidificada,
cumprira parte do ciclo da natureza,
e outra estava para cumprir,
na estrada.
Nesse pequeno fragmento geológico
de um todo,
estava o meu ser,
numa pedra,
no caminho,
uma pedra.
Escrevi isto de uma vez e não corrigi. Quando acabei, reli, e percebi que não é sobre uma pedra. É sobre mim. Dura, resistente, pequena, rolada e só, no meio de tantas outras. É assim que me vejo agora — uma coisa que foi empurrada pelo caminho, que perdeu as arestas, que continua a rolar sem saber para onde.
Não sei se é destino. Sei que é o que sinto. E, se é o que sinto, então talvez seja verdade.
Amanhã vou passar pelo mesmo caminho. A pedra já não estará lá — alguém a terá levado, ou a chuva. Mas eu continuo a rolar.
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