Olhos que magoam
Terça-feira, 2 de Maio de 1978
Hoje passei o dia a olhar para as pessoas. Não foi de propósito. Foi uma coisa que me aconteceu — ia na rua, no trólei, na paragem, e dei por mim a olhar para os olhos de quem passava. Olhos de todas as cores e feitios. Verdes, azuis, castanhos, pretos. Olhos que olham para nós e não nos vêem.
Há uma coisa nos olhos das pessoas que não sei explicar. Olham para nós, e nós olhamos para elas, e no entanto ficamos os dois na mesma. Não há passagem. Os olhos estão ali, quedos, com uma impotência qualquer — como se não conseguissem compreender o sofrimento que causam. É isso: causam sofrimento e não sabem. Ou sabem e não se importam. Nunca sei qual das duas.
Se a humanidade fosse cega, o sofrimento cessava para quem vê. Escrevi isto e não sei se é verdade. Sei que, às vezes, é o que parece.
Sentei-me a escrever:
Olhos mudos, olhos verdes, azuis, castanhos, pretos, olhos de todas as cores e feitios.
Olhos que vêm quedos na sua impotência de compreender o sofrimento que causam.
Seja a humanidade cega e o sofrimento cessa para quem vê.
Chega de horrível visão que perdura ante os nossos olhos, o homem morre e a visão persiste.
Deixemos que a visão nos tome no seu poder e nos jogue, fazendo-nos rodopiar dentro da mesma confusão que é a realidade do passado, presente e futuro.
Deixemo-nos levar nas águas revoltosas que nos levam a nenhum lado.
Deixemo-la compreender o nosso fracasso.
Fico com isto e não sei a quem se dirige. Podia ser a qualquer pessoa. Podia ser a mim. Podia ser àqueles olhos que eu vi hoje na rua e que não me viram. Ou podia ser aos olhos que eu conheço bem, e que já não estão comigo. Não sei. Hoje não sei nada.
Amanhã volto a olhar para as pessoas, e volto a não ser visto.
Comentários
Enviar um comentário