Quem sou eu?

Segunda-feira, 1 de Maio de 1978


Começa Maio e eu não sei quem sou.

Não é uma frase de estilo. É o que sinto desde há dias — desde que Abril acabou, ou desde antes, não sei bem. Há uma coisa que se perdeu e eu não dou por ela. Ando pela casa, pela rua, pelo quarto, e não me reconheço. Vejo-me ao espelho e vejo uma cara que conheço, mas não é a minha. É como se alguém tivesse tomado o meu lugar e eu estivesse a ver de fora.

No ócio da noite, sentei-me a escrever:

Perdi os meus gestos, a minha forma, a minha sombra, o meu rosto no espelho. Agora o que fazer? Quem sou eu?

Já não ouço os meus passos na calçada, o meu riso de outrora. O que me aconteceu?

Já não posso contar com as pedras da rua, fiéis companheiras nas longas caminhadas, dos meus pensamentos agora perdidos.

Não me sinto, sou leve como uma nuvem. Já não posso ser como era dantes. Sou oco.

Fundos e castanhos, os meus olhos, derretem-se numa lágrima que contém toda a minha dor, que não sinto, porque perdi toda a felicidade e não me importo.

Depois de escrever fiquei a olhar para o papel. Há uma coisa nestas palavras que me assusta mais do que a perda: é o "não me importo". Escrevi-o e é verdade. Perdi a felicidade e não me importo. Não é coragem, não é aceitação. É ausência. É o que fica quando a dor já não dói o suficiente para se sentir.

Não sei o que se passou comigo. Sei que já não sou o mesmo que começou este diário. E, se não sou o mesmo, quem sou?

Fico com esta pergunta e não tenho resposta. Amanhã vou ver se a encontro na rua, ou no espelho, ou num sítio onde ainda não procurei.




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