Capítulo II - Maio de 1978 - Volume V
Há um momento, depois de uma grande perda, em que a pessoa já não está a chorar, mas ainda não está a viver. Não é luto, nem é cura. É o intervalo entre os dois — o tempo em que o corpo se levanta, a cabeça funciona, e no entanto nada faz sentido, porque a coisa que organizava os dias deixou de existir.
António entra neste capítulo nesse intervalo. Não está triste como estava em Fevereiro. Não está revoltado como estava em Março. Está à espera — mas já não sabe de quê. A Lina saiu do centro e não entrou nada no lugar dela. E é isso que faz deste capítulo o mais silencioso e o mais importante de todos: porque é aqui que ele descobre que a vida não se organiza sozinha, e que a pergunta deixou de ser "quem me ama?" para passar a ser "quem sou eu?".
Maio é o mês em que ele procura um lugar. Um lugar no mundo, um lugar na escrita, um lugar dentro de si. Não encontra nenhum. Mas procura. E, ao procurar, começa a construir a única coisa que vai sobreviver a tudo isto: a voz que escreve.
Este capítulo não é sobre a Lina. Não é sobre a Dila. É sobre o que fica quando elas saem — e sobre o que ele faz com esse resto.
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