Prólogo - Maio de 1978 - Volume V

 


Depois de Abril ter aberto uma primeira brecha no lugar onde durante tanto tempo estivera fechada a vida de António, Maio não lhe traria imediatamente a paz. A liberdade, afinal, não era uma porta que se atravessasse e tudo resolvesse do outro lado. Podia ser também um espaço vazio, demasiado grande para quem ainda não aprendera a habitá-lo.

António começaria este mês diante de uma pergunta que parecia simples e que, no entanto, escondia quase tudo.

Quem sou eu?

Não seria apenas uma pergunta sobre o rapaz que fora, nem sobre aquele que julgava estar a tornar-se. Seria uma pergunta mais funda, nascida da sensação de ter perdido referências que durante algum tempo lhe tinham dado forma. O que antes parecia evidente começaria a tornar-se incerto. O passado já não poderia ser recuperado e o futuro ainda não possuía contornos suficientemente nítidos para servir de abrigo.

E, perante esse vazio, António escreveria.

A escrita ganharia espaço. Já não seria somente o lugar onde guardava os acontecimentos dos dias ou onde tentava compreender os seus sentimentos. Começaria a transformar-se numa espécie de território próprio, onde poderia experimentar outras vidas, outras imagens, outras ideias e até outras versões de si mesmo. À medida que a realidade lhe parecesse mais estreita, a imaginação abrir-lhe-ia caminhos.

Mas nem todos esses caminhos seriam tranquilos.

Maio traria consigo uma linguagem mais inquieta. A morte surgiria muitas vezes, não necessariamente como desejo, mas como imagem, ameaça, transformação e limite. O ódio apareceria ao lado da revolta. A sociedade seria observada com desconfiança. António procuraria culpados para aquilo que não conseguia ainda compreender inteiramente e, por vezes, levaria as suas ideias até lugares extremos.

É também aí que este mês se tornará revelador.

Porque a procura de liberdade não significará apenas afastar-se daquilo que o prendia. Significará começar a interrogar as próprias prisões. Algumas estarão no mundo exterior. Outras estarão dentro dele, feitas de recordações, medo, desejo, ressentimento e necessidade de ser compreendido.

E, pouco a pouco, surgirá uma ideia nova.

Talvez ser livre não seja simplesmente deixar de pertencer a alguém. Talvez seja conseguir pertencer a si próprio.

António ainda não terá essa resposta. Procurá-la-á através das palavras, das imagens que inventa, das ideias que combate e das contradições que carrega. Haverá dias em que se sentirá quase livre e outros em que voltará a sentir-se prisioneiro. Haverá momentos em que olhará para a sociedade como se estivesse diante de uma enorme armadilha e outros em que descobrirá, inesperadamente, que o mundo também pode conter alguma beleza.

No fundo, Maio será um mês de procura.

Não a procura de uma nova paixão que substitua a anterior, mas de qualquer coisa mais difícil de encontrar. Um lugar interior onde António possa reconhecer-se sem precisar de se esconder atrás dos seus sonhos.

Ainda haverá sombras.

Mas, algures entre elas, começará a nascer uma luz diferente. Não a luz de quem já encontrou o caminho, mas a de quem finalmente percebeu que terá de o construir.



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