Divagações sobre a morte de alguém

Quinta-feira, 11 de Maio de 1978


Um destes dias escrevi sobre um homem que morreu. Hoje escrevo sobre outro. Ou sobre o mesmo. Já não sei.

Deu-me vontade de rir, mas não pude, seria uma gargalhada sonora e longa para que assim pudesse desfrutar de tamanho prazer.
Não pude porque me abalou profundamente, o alvo da troça. Jamais poderia imaginar que "tal" me fizesse rir.
Pobre bobo, a sua missão falhou, já não fará rir ninguém com as suas piadas ou malabarismos, antes pelo contrário.
Todos choram e quando passa, todos têm um gesto de respeito para com ele. Já não é o mesmo, ninguém o vê, mas todos se vergam à sua vontade…
Disfrutará do poiso, aquele que usar da audácia, mas mais audacioso é aquele que não se senta.

A vontade de rir não era por ele. 

Era por todos. 

Pela hipocrisia. 

Pelos que choram agora e não o olhavam antes. 

Pela comédia que é isto tudo. 

Mas não ri. Não posso. 

Porque também eu faço parte desta comédia, e rir seria rir-me de mim.


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