Encontros em segredo

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 1977

Hoje estive para escrever. Apeteceu-me escrever, mas não o fiz.

Não foi por falta de inspiração. Pelo contrário. Tinha qualquer coisa dentro de mim que queria transformar em palavras, mas acabei por não o fazer porque aquilo que escrevesse seria para depois entregar à Lina.

Era um sonho futurista sobre nós os dois. Um sonho, mas muito pessimista, diga-se de passagem. E foi precisamente isso que me fez hesitar. Tive receio de que ela não gostasse, de que aquelas palavras lhe desagradassem ou lhe trouxessem uma visão de nós que eu próprio não queria transmitir.

Talvez por isso tenha preferido guardar o que tinha para escrever.

Os nossos encontros também se tinham tornado diferentes.

Hoje, quando esperava pela Lina, estava tão nervoso que quase me estourava o coração. Cada encontro trazia consigo essa ansiedade, essa espera, esse receio de que alguma coisa pudesse correr mal.

Mas houve também uma coisa que me deixou satisfeito, vi que ela gostava dos nossos encontros.

E isso, no meio de todas as dificuldades, dava-me alguma tranquilidade.

Agora enquanto escrevo, continuo com vontade de pôr em palavras aquilo que penso e sinto. Mas algumas palavras parecem perigosas quando sabemos que poderão chegar às mãos de quem amamos.

Talvez o sonho pudesse esperar.

Os encontros, esses, não.



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