O paraíso... longínquo

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 1977

Este dia foi horrível para mim.

Passei-o quase sempre na expectativa de receber outra notícia desagradável ou de encontrar o pai da Lina quando a fosse esperar.

Depois do que tinha acontecido ontem, já não conseguia encarar um encontro com ela como uma coisa simples. Havia sempre alguma coisa à minha espera, mesmo que eu não soubesse exactamente o quê. Uma notícia, uma proibição, uma presença inesperada. Qualquer coisa podia transformar aquele pouco tempo que tínhamos num novo problema.

O tempo passou muito lentamente.

Quando chegou a hora de ir ter com ela, fui muito nervoso. Enquanto me aproximava, levava comigo todos os receios que me tinham acompanhado durante o dia. Bastava aparecer o pai dela para tudo se complicar novamente.

Mas ele não apareceu.

Não houve notícias inesperadas.

Por momentos, foi como se o mundo tivesse suspendido aquilo que parecia estar sempre a preparar contra nós. Pude estar com a Lina sem que surgisse mais uma ameaça, mais uma pessoa a tentar impedir-nos.

Só que a tranquilidade não durou muito.

A Lina disse-me que talvez fosse melhor não nos vermos, oficialmente, durante algum tempo.

Oficialmente.

A palavra parece quase uma pequena brecha por onde ainda podemos passar. Não é deixar de nos vermos. É apenas deixar de o fazer de uma maneira que possa ser descoberta ou usada contra nós.

Percebo o que ela está a pedir, embora não seja fácil aceitá-lo.

Aquilo que antes era simplesmente encontrarmo-nos passa agora a ter regras, cuidados e receios. Até estar com ela exige que pensemos naqueles que nos rodeiam.

E, apesar de tudo, continuamos a querer estar juntos.

O que a Lina pede é o paraíso.

Talvez seja isso que estamos a tentar conseguir, um lugar onde possamos estar juntos sem que ninguém nos impeça, sem medo, sem ter de olhar constantemente à nossa volta.

Não sei se esse paraíso existe.

Mas, depois de tudo o que aconteceu, espero que o consigamos alcançar.



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