Será que a causa de todos os problemas é a Dila?

Quarta-feira, 28 de Dezembro de 1977

Mais uma triste notícia.

Quando fui ter com a Lina, ela contou-me que tinha sido proibida definitivamente de me ver.

A palavra ficou comigo. Definitivamente. Como se desta vez já não houvesse espaço para esperar que as coisas mudassem, como se alguém tivesse decidido fechar de vez uma porta que nós ainda tentávamos manter aberta.

Enfim, mais uma das muitas notícias que correm mundo, destruindo cem vezes mais que uma guerra o coração, o amor e a vida.

E talvez seja por isso que me surge aquele pensamento que nem eu próprio consigo explicar, será que a causa de todos os problemas é a Dila?

Não sei se isto é justo. Nem sei sequer se estou a falar dela ou daquilo que ficou em mim depois dela.

A Dila faz parte do passado. Um passado que ficou para trás, mas deixou cicatrizes, únicas que o fazem recordar.

Mas talvez as cicatrizes tenham uma coisa que eu não compreendia antes, quando uma ferida antiga volta a doer, não é preciso que alguém a toque. Basta que aconteça qualquer coisa que se pareça com aquilo que a abriu.

E agora há novamente alguém a querer separar-me de uma pessoa que amo.

Talvez seja essa a razão de eu pensar na Dila. Não porque ela esteja aqui, nem porque tenha feito alguma coisa hoje, mas porque esta ameaça de perder a Lina me fez sentir novamente uma dor que eu julgava pertencer apenas ao passado.

O passado não voltou. Mas a sensação voltou.

E, de repente, percebo que há coisas que não desaparecem quando acabam. Ficam escondidas, como marcas debaixo da pele, à espera de que outra dor as faça lembrar que ainda existem.

Hoje vi também outra coisa.

Vi que a Lina e eu somos um só. Dois corpos, duas almas, um destino.

E o que subsiste acima de tudo é o amor.

Se nos quiserem separar, têm de nos destruir. E então, sobre as nossas cinzas, o amor será eterno.

É assim que penso esta noite. Talvez seja exagerado, talvez seja apenas a maneira que encontro para responder ao medo de perder aquilo que tenho. Mas não consigo imaginar outra coisa senão nós os dois a resistirmos.

E, levado por essa certeza, escrevo que serão destruídos ao décimo terceiro mês os nossos executores. Os falsos testemunhos suplicarão e serão poupados à morte cruel e as suas almas penarão por cem anos.

São palavras duras. Palavras de alguém que se sente cercado e que, por momentos, só consegue responder à ameaça com a mesma intensidade.

Mas por baixo de tudo isso está apenas uma coisa, não quero perder a Lina.

E talvez seja também por isso que o passado me vem hoje à memória.

A ferida antiga não é a causa daquilo que está a acontecer agora. É apenas a cicatriz que faz esta nova dor parecer ainda maior.

Eu vos juro.



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