O amor esmoreceu, mas…
Terça-feira, 27 de Dezembro de 1977
Previa uma zanga em breve com a Lina, se ela não mudasse de ideias.
Era uma sensação que começava a ganhar forma dentro de mim. Não queria que acontecesse, mas também não conseguia ignorar aquilo que estava a sentir. Se ela mudasse de ideias, eu teria de mudar também. Por ela fazia tudo.
Tinha pena de que a mãe dela a estivesse a convencer aos poucos. Sentia que essa influência estava a afastá-la de mim, ainda que isso acontecesse devagar, quase sem se dar por ela. Queria tentar contrariar essa situação, mas sabia que teria de fazê-lo com calma. Estes momentos eram demasiado débeis para serem submetidos a mais pressão.
Hoje estou a escrever e já sei que os meus receios tinham fundamento.
Estive com a Lina e aquilo que temia começou a confirmar-se. Não foi apenas uma impressão minha, nem uma preocupação sem razão. Havia realmente qualquer coisa a mudar.
É difícil aceitar isso quando ainda se quer acreditar que tudo pode continuar como antes.
Quero dizer que o amor esmoreceu, mas persiste.
Talvez seja precisamente essa a parte que mais me prende a tudo isto. Mesmo sentindo que alguma coisa perdeu força, não consigo dizer que acabou. O sentimento ainda está aqui, embora diferente, mais frágil, talvez cansado de todas as dificuldades que se foram acumulando.
Não quero desistir dela. Por ela continuo disposto a mudar, a esperar e a tentar contrariar aquilo que nos separa, mas sem esquecer que estes momentos são débeis.
E agora, enquanto escrevo, percebo que o dia me deixou uma certeza que eu não queria ter,
o amor esmoreceu, mas persiste.
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