Entre o amor e a partida

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Quinta-feira, 6 de Outubro de 1977

Abeira-se um grande amor, mas também a separação.

Esta frase ficou hoje dentro de mim com uma força que não consigo afastar. Parece estranho que duas coisas tão diferentes possam caminhar juntas, quase lado a lado, como se uma trouxesse consigo a sombra da outra. Quanto mais sinto a Lina próxima de mim, mais penso na possibilidade de ter de partir. E quanto mais penso em partir, mais difícil me parece imaginar a minha vida sem ela.

Já vivi momentos assim... numa outra vida...

Hoje fui esperá-la ao frio e à chuva. O tempo estava desagradável, daqueles dias em que apetece ficar em casa e deixar que as horas passem. Mas eu fui. Havia qualquer coisa que me fazia querer estar ali, mesmo sabendo que iria esperar debaixo daquela chuva. Depois apareceu ela e tudo mudou. O frio pareceu-me menor, a chuva deixou de ter importância. Bastou vê-la para sentir dentro de mim aquele calor que não vinha do corpo, mas dela.

Falou comigo e as suas palavras foram um conforto. Às vezes, não é preciso que alguém diga grandes coisas. Há palavras simples que chegam no momento certo e conseguem sossegar aquilo que trazemos agitado por dentro. Foi assim hoje. E o beijo foi como um sedativo, capaz de acalmar por alguns instantes todas as dúvidas que tenho carregado comigo.

Vim contente embora.

Talvez seja isto que começa a ser o amor. Não uma certeza absoluta, nem uma resposta para tudo, mas esta necessidade de estar perto de alguém e sentir que, por alguns momentos, o resto deixa de pesar tanto. Com a Lina sinto-me bem. E cada dia que passa parece tornar mais difícil fingir para mim próprio que isto é apenas uma amizade.

Mas a noite trouxe outra notícia.

Quando o meu pai chegou, fui informado de que cento e vinte trabalhadores do jornal iam ser despedidos. Entre eles está o meu pai.

É triste e é verdade.

Fiquei a pensar naquilo. Cento e vinte pessoas. Cento e vinte famílias que de repente podem ficar sem saber muito bem como será o dia seguinte. E no meio desse número está a minha família. A notícia deixou de ser uma coisa distante, uma daquelas dificuldades que ouvimos falar e que pertencem aos outros. Desta vez entrou directamente em casa.

Talvez por isso tenha voltado a pensar na ideia de sair do país.

Anseio partir porque há demasiada miséria e sei que mais haverá. Sinto que aqui o futuro se vai tornando cada vez mais apertado, como se as possibilidades fossem diminuindo à medida que os dias passam. Quero conhecer outra vida, encontrar um lugar onde possa construir qualquer coisa diferente. Mas, ao mesmo tempo, há uma coisa que me prende.

A Lina.

E é aqui que tudo se torna mais complicado.

Como posso desejar partir e, ao mesmo tempo, ter medo de deixar precisamente a pessoa que não quero perder? Talvez seja por isso que já começo a fazer planos, ainda vagos, ainda sem saber se algum dia chegarão a ser realidade. Penso em partir, penso no futuro, penso no que poderá acontecer comigo e com a minha família. Mas quando penso nela, tudo se baralha.

Tenho dezassete anos e já começo a sentir que a vida pode obrigar-me a escolher entre coisas que queremos igualmente.

Por enquanto, nada está decidido.

Veremos.


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