Entre a chuva e a certeza

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Quarta-feira, 5 de Outubro de 1977

Hoje foi Dia da República, feriado nacional. Para mim, foi sobretudo um daqueles dias em que pude estar com a Lina sem a pressa dos outros dias e sem a obrigação de olhar constantemente para o relógio.

Saímos juntos para Gondomar.

O tempo não ajudou muito. Choveu, mas a chuva, em vez de nos afastar, parecia fazer precisamente o contrário. Há dias em que o mau tempo incomoda e há outros em que parece ter uma função qualquer que não conseguimos explicar. Hoje foi assim. A chuva obrigava-nos a estar mais perto, a procurar abrigo, a caminhar juntos, e talvez seja verdade aquilo que às vezes se diz, a chuva aproxima as pessoas.

Passámos a tarde juntos, sempre próximos, sempre unidos. E foi uma tarde estupenda.

Não houve necessidade de grandes acontecimentos. Às vezes basta estar ao lado de alguém para que o dia ganhe outro significado. Tenho vindo a perceber isso com a Lina. Quando estou com ela, as coisas parecem mais simples. Quando estou longe, começo a pensar demasiado nelas.

Talvez seja esse o meu problema.

Penso demasiado.

Observo cada gesto, cada palavra, cada mudança de expressão. Procuro sinais onde talvez não existam e, ao mesmo tempo, tenho medo de ignorar aqueles que realmente existem. Quero perceber o que ela sente, mas tenho receio da resposta.

E, no entanto, começo a acreditar numa coisa que há pouco tempo nem sequer admitia.

Estou quase em crer que a rapariga que preciso é a Lina.

Escrever isto ainda me causa alguma estranheza.

«A rapariga que preciso.»

Não sei se é exactamente isso. Talvez seja cedo demais para dizer. Talvez amanhã pense de outra maneira. Já me conheço suficientemente bem para saber que a certeza de hoje pode transformar-se na dúvida de amanhã.

Mas hoje sinto-o.

Há qualquer coisa nela que me prende. Não apenas os beijos, nem os momentos em que estamos juntos, mas a própria presença dela. A maneira como me sinto quando estou ao seu lado. A tranquilidade que me dá e, ao mesmo tempo, esta inquietação que não me larga.

É quase uma contradição.

Estou feliz e continuo desconfiado.

Talvez porque gostar de alguém seja também começar a ter alguma coisa a perder.

Viemos embora mais cedo porque eu tinha de ir ao cinema. Não me apetecia muito interromper a tarde, mas tinha de ser. E talvez seja melhor assim. Ficam os momentos incompletos, aqueles que continuam na cabeça depois de terminarem.

Quando penso na Lina, fico com vontade de prolongar tudo.

Mas ainda não consigo abandonar a minha velha desconfiança.

Por isso, mesmo estando quase convencido, escrevo:

Gosto da Lina.

Mas… mantenho-me desconfiado.


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