Quando a solidão acaba por ter um nome

 

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Terça-feira, 4 de Outubro de 1977

Habituo-me facilmente a qualquer «habitat». Talvez demasiado facilmente. Basta permanecer alguns dias num lugar, rodeado pelas mesmas pessoas, pelos mesmos ruídos e pelas mesmas pequenas coisas, para que tudo passe a fazer parte de mim. Depois, quando alguma dessas coisas falta, noto imediatamente o vazio.

Hoje senti-o.

Passei quase todo o dia sozinho e essa solidão acabou por me pesar mais do que esperava. Não aconteceu nada de especial que justificasse este estado de espírito. Não houve discussão, não houve nenhuma notícia má, nenhuma razão concreta para estar assim. Apenas me faltava companhia. E, quando me falta companhia, começo a pensar.

Pensei sobretudo nos momentos que vivi com a Lina no domingo e ontem.

É curioso como dois dias podem alterar tanto a maneira como vemos uma pessoa. Ainda há pouco tempo eu procurava nela qualquer coisa que não sabia definir. Havia uma espécie de distância dentro de mim, uma reserva que me fazia observar tudo com cuidado. Agora continuo a observar, continuo desconfiado, mas já não consigo negar que alguma coisa mudou.

Sinto-me cada vez mais preso a ela.

A palavra assusta-me um pouco. Preso. Parece dar àquilo que sinto uma importância que talvez ainda não queira reconhecer. E, por isso mesmo, tento esconder-lhe os meus sentimentos. Espero ter forças para não lhe mostrar aquilo que se passa dentro de mim.

Tenho medo de que, se ela perceber o quanto gosto dela, tudo mude.

Talvez seja uma ideia absurda. Talvez ela já tenha percebido. Talvez eu seja o único a acreditar que consigo esconder alguma coisa quando, provavelmente, os meus olhos e os meus gestos dizem muito mais do que aquilo que a minha boca consegue dizer.

Mas se ela souber o que sinto, poderá mudar de ideias.

E isso seria custoso.

Não quero pensar nisso, mas penso.

Há ainda outra coisa que me inquieta. Sinto-me quase um traidor à sua causa, à nossa causa. Não sei explicar bem porquê. Talvez seja por saber que a minha vida pode tomar um rumo completamente diferente daquele que agora desejo. Posso chegar a partir para Moçambique e, se isso acontecer, o que será dela?

Tenho medo de lhe dar um desgosto.

É estranho pensar nisto. Ainda há tão pouco tempo nem sequer admitia para mim próprio que pudesse estar assim ligado a uma rapariga e agora já penso na possibilidade de ter de me afastar dela, como se a distância pudesse apagar aquilo que está a nascer.

Não sei o que vai acontecer.

Sei apenas que hoje, no meio da solidão, pensei nela quase todo o dia.

E talvez isso seja mais revelador do que tudo aquilo que tenho tentado esconder.

Depois, quando me preparava para ir para a Academia, encontrei-me com a Lina.

Foi pouco tempo. Não precisei de grandes conversas nem de grandes acontecimentos. Bastaram aquelas poucas palavras, a sua presença e a sensação imediata de que o peso que trazia comigo desde manhã desaparecia.

É difícil explicar isto.

Passei o dia inteiro a sentir-me só e bastaram alguns instantes junto dela para deixar de o estar.

Sou feliz junto dela.

Escrevo isto aqui, onde ninguém me ouve e onde posso ser sincero sem ter de me defender das minhas próprias palavras.

Talvez seja precisamente por isso que continuo a escrever.


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