Um dia que pareceu maior do que foi
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 1977
Hoje foi feriado municipal por causa da Festa do Rosário em Gondomar, e confesso que fiquei satisfeito com isso. A Lina não foi trabalhar e a mãe deu-lhe autorização para sair comigo. Só esta autorização já me causou alguma surpresa, pois estas súbitas mudanças de carácter deixam-me desconfiado.
Não sei se estou a ser injusto, mas não consigo deixar de reparar nestas coisas.
Talvez seja porque ainda não me sinto completamente seguro de tudo o que se passa entre nós. Há momentos em que parece tão simples. Estamos juntos, conversamos, entendemo-nos e, muitas vezes, parece que aquilo que um quer é também aquilo que o outro quer. Nesses momentos não encontro razão para duvidar de nada.
Hoje foi um desses dias.
Saímos juntos para Gondomar e fomos passando o tempo na companhia um do outro. Não aconteceu nada que, contado a alguém, pudesse parecer extraordinário. No entanto, para mim, estas coisas começam a ter uma importância diferente.
Dou-me muito bem com a Lina.
É talvez isso que mais me confunde.
Entendemo-nos muito bem e existe entre nós uma facilidade que não consigo explicar completamente. Não tenho de procurar assunto para falar com ela, nem sinto aquela distância que tantas vezes existe entre duas pessoas que ainda não sabem bem o que podem dizer uma à outra.
Com a Lina é diferente.
Há uma espécie de entendimento que se foi construindo quase sem darmos por isso.
E então começo a pensar onde isto poderá acabar.
Não sei no que isto vai dar.
É uma pergunta que me acompanha cada vez mais. Não porque queira necessariamente encontrar já uma resposta, mas porque sinto que a minha vida está a sofrer uma modificação. Há qualquer coisa que mudou em mim e não parece querer voltar ao que era.
Cheguei mesmo a pensar no casamento.
Só de pensar em tal, arrepiei-me.
É estranho imaginar uma coisa dessas aos dezassete anos. Ainda sou novo, tenho tanta coisa para viver e nem sequer sei o que vai acontecer amanhã. E, no entanto, por alguns instantes, essa ideia pareceu-me plausível.
Talvez seja absurdo.
Talvez seja apenas o efeito de estar tão bem com uma pessoa e de imaginar que esse bem-estar poderia durar muito tempo.
Mas a verdade é que pensei nisso.
Depois assustei-me com o próprio pensamento.
Casamento.
A palavra parece enorme quando aplicada à vida de alguém da minha idade. Parece pertencer a um futuro muito distante, a pessoas mais velhas, a uma vida já organizada e definida. Eu ainda estou a tentar perceber quem sou, o que quero fazer e até onde quero ir.
E já estou a pensar em casar.
Não deixa de ser engraçado.
Ao mesmo tempo, há qualquer coisa de sério nessa ideia que não consigo ignorar. Talvez porque, quando penso na Lina, começo a imaginar coisas que antes não imaginava. Já não penso apenas no próximo encontro ou no próximo beijo. Por vezes, sem querer, a imaginação vai mais longe.
Depois volto à realidade.
Sou novo.
Ainda tenho muito para aprender.
E continuo inseguro.
Talvez seja essa insegurança que me faz desconfiar tanto. Talvez tenha medo de acreditar demasiado numa coisa que pode não ser aquilo que imagino. Gosto dela, sinto-me bem com ela e cada vez mais preso à sua presença, mas ainda existe dentro de mim uma voz que pergunta se tudo isto poderá realmente ser aquilo que parece.
Hoje, porém, procurei não dar demasiada importância a essa voz.
Quis simplesmente aproveitar o dia.
Estar com a Lina.
Conversar.
Andar por Gondomar.
Sentir que, pelo menos durante aquelas horas, havia uma espécie de entendimento entre nós.
E talvez seja precisamente por momentos assim que começo a compreender que alguma coisa está a mudar.
Ainda não sei se devo chamar-lhe amor.
Ainda não.
Mas já sei que não é uma coisa pequena.
Quando voltei para casa, fiquei com aquela sensação estranha de quem viveu um dia simples e, apesar disso, sente que alguma coisa ficou diferente.
Talvez tenha sido apenas mais um dia.
Para mim, não foi.
E continuo sem saber no que isto vai dar.
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