Quando já não é apenas companhia
Domingo, 2 de Outubro de 1977
Em geral não gosto de festas. Chego mesmo a achá-las desagradáveis. Talvez porque nunca me sinta verdadeiramente à vontade no meio de muita gente, ou porque não encontro grande interesse em estar num lugar onde todos parecem obrigados a divertir-se ao mesmo tempo. Há qualquer coisa nessas ocasiões que me incomoda, uma espécie de alegria organizada que nem sempre consigo acompanhar.
Hoje, porém, fui a uma com a Lina, a Rosita e o Victor.
E, para contrariar tudo aquilo que acabo de dizer, esta festa não me foi, no total, desagradável.
Talvez tenha sido por causa deles. Talvez por ter estado com colegas com quem me sinto bem. Ou talvez a verdadeira razão seja muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil de admitir.
A Lina estava comigo.
Há alturas em que começo a perceber que a presença de alguém altera completamente a maneira como vejo as coisas. Um lugar que, noutras circunstâncias, seria apenas mais um lugar passa a ter qualquer coisa de diferente. Uma tarde que poderia ser vulgar ganha outra importância. Até aquilo de que não se gosta pode tornar-se suportável, desde que a pessoa certa esteja por perto.
Hoje aconteceu-me isso.
Estive bem com os meus colegas. Não fiquei propriamente encantado com a festa, nem passei de repente a gostar delas. Continuo a não ser um apaixonado por festas. Mas desta vez consegui estar ali sem aquela vontade de desaparecer que tantas vezes sinto.
E isso já diz alguma coisa.
Tenho vindo, pouco a pouco, a sentir pela Lina um pouco mais do que sentia antes. É difícil dizer exactamente quando começou. Não houve um momento determinado em que tudo tivesse mudado. Não houve uma palavra, uma conversa ou um acontecimento que pudesse apontar como princípio.
Foi acontecendo.
Primeiro, a vontade de estar com ela. Depois, a falta que me fazia quando não estava. Depois, a maneira como ficava a pensar nas nossas conversas, mesmo quando já tinham terminado. Agora começo a reparar que certos momentos só me parecem verdadeiramente bons quando ela está presente.
E isto começa a assustar-me um pouco.
Não porque esteja mal junto dela. Pelo contrário.
É precisamente porque me sinto demasiado bem.
Continuo, no entanto, a recusar-me a falar em amor.
Essa palavra parece-me ainda grande demais para aquilo que consigo compreender. Talvez seja amor, talvez seja apenas uma amizade que se tornou mais forte, talvez seja qualquer coisa entre uma coisa e outra. Não sei.
E há ainda algo nela que não entendo.
É isso que me faz continuar atento. Gosto dela, cada vez mais, disso já não consigo fugir. Mas há qualquer coisa que permanece por descobrir. Uma parte dela que não consigo alcançar completamente e que me desperta curiosidade, mas também alguma desconfiança.
Talvez seja por isso que não consigo entregar-me inteiramente ao que sinto.
Tenho medo de me enganar.
Talvez o maior problema esteja em mim. Talvez espere sempre encontrar alguma coisa escondida por detrás daquilo que vejo. Quando uma pessoa começa a ser importante, qualquer dúvida ganha outra dimensão. Uma pequena coisa pode ficar a ocupar muito espaço dentro da cabeça.
Mas hoje não quero pensar demasiado nisso.
Hoje quero guardar a tarde.
Foi uma tarde maravilhosa na sua companhia. Estivemos juntos, conversámos, vivemos aqueles momentos que, quando acontecem, parecem simples e que depois ficam a crescer na memória.
E beijámo-nos.
Já não é a primeira vez que isso acontece, e talvez seja precisamente por isso que começo a perceber que alguma coisa está a mudar entre nós. Um beijo, quando se repete, deixa de ser apenas uma novidade. Passa a fazer parte da relação, mas não deixa de ter importância.
Pelo menos para mim.
Há gestos que não precisam de muitas palavras. Um beijo pode dizer aquilo que duas pessoas ainda não têm coragem de dizer de outra maneira. E talvez seja também por isso que continuo sem saber muito bem onde estamos.
Sei apenas que gosto de estar com ela.
Sei que procuro a sua companhia.
Sei que quando estou longe penso nela.
E sei que hoje, quando saí da sua beira, vinha feliz.
Talvez seja esta a parte mais difícil de explicar.
Não precisei de nada de extraordinário para me sentir assim. Bastou ter passado uma tarde junto dela. Bastou aquela proximidade, aquelas conversas, aqueles beijos e a sensação de que, durante algumas horas, tudo estava no seu lugar.
Depois, quando fui embora, levei comigo essa felicidade.
Mas levei também a pergunta que continua sem resposta.
O que será, afinal, aquilo que sinto pela Lina?
Ainda não quero chamar-lhe amor.
Talvez amanhã continue a não querer.
Mas hoje percebi que já não é apenas companhia.
É qualquer coisa mais funda, qualquer coisa que está a crescer devagar dentro de mim e que começa a tornar-se impossível ignorar.
E, por enquanto, é isso que me basta.
O resto, hei-de descobrir.
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