Entre o ciúme e a confiança
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Domingo a quarta-feira, 9 a 12 de Outubro de 1977
No domingo paguei caro a decisão de deixar a Lina ir sozinha a Gondomar. O dia ficou-me atravessado desde o princípio. Não havia momento em que não pensasse nela e, quanto mais pensava, mais a imaginava junto de outros rapazes. Não sabia sequer se havia alguma razão para isso, mas o pensamento instalara-se e não me largava. Era ciúme, um ciúme que eu próprio mal compreendia e que me fazia sofrer sem que nada tivesse acontecido.
O coração não me dava descanso. Tinha vontade de sair de casa, de ir ter com ela, mas fiquei. Não saí nem um segundo, embora me apetecesse. Foi um daqueles dias em que estar sozinho não significa apenas não ter companhia. Significa ter demasiado tempo para pensar.
Na segunda-feira, porém, restabeleci-me. Estive com ela e conversámos demoradamente sobre o dia anterior. Fiquei muito contente com aquilo que ela me contou e, depois, contei-lhe também como tinha passado o domingo. Era importante dizer-lhe o que se tinha passado comigo, talvez para que ela percebesse aquilo que eu não conseguia esconder tão bem como julgava.
Mas a verdade é que nem tudo ficou resolvido dentro de mim. Acreditei no que me disse e, ao mesmo tempo, desconfiei em parte. É uma contradição que me custa explicar. Custa-me acreditar que ela goste de mim e de outro. Talvez fosse melhor não pensar nisso, esquecer essa possibilidade antes que ela crescesse dentro de mim.
Na terça-feira começaram finalmente as aulas. Depois de muito tempo estive com o Manel e falei também com a Dila, embora já não com a mesma intensidade e intensão de outrora. Há pessoas e relações que vão mudando de lugar dentro de nós, sem que seja preciso tomar uma decisão sobre isso. Algumas permanecem, mas deixam de ocupar o espaço que antes ocupavam.
Entretanto, a Lina fazia projectos e eu fazia projectos. Havia qualquer coisa que nos aproximava nessa vontade de imaginar o que poderia acontecer. Eu queria um dia a sós com ela para lhe contar tudo aquilo que guardava cá dentro. Ainda não tinha conseguido dizer tudo, talvez por medo, talvez porque certas coisas, depois de ditas, deixam de poder ser escondidas.
Mas acreditava que esse momento estava perto.
Muito perto mesmo.
Na quarta-feira soube, através da Lina e dos meus colegas, que a minha falta no domingo tinha sido notada. As pessoas que não me “gramam” tinham reparado que eu não estava lá e até a mãe da Lina se surpreendera com a minha ausência. Os colegas chegaram a perguntar-lhe se estávamos zangados.
Aquilo surpreendeu-me. Não esperava que a minha ausência pudesse provocar tanta atenção. Afinal, até as “altas individualidades” tinham reparado que eu não aparecera e pareciam ter sentido a minha falta.
Fiquei arrependido, sim, mas não exactamente por ter ficado em casa. Arrependi-me por ter perdido a companhia dela, por não ter estado ao lado da minha companheira. Talvez fosse isso que mais me custasse admitir.
A verdade é que eu próprio já começava a perceber que a minha presença junto da Lina se tornara qualquer coisa de necessária.
Até parece que o fogo não se sente bem sem a água.
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