Epílogo - Abril de 1978 - Volume V


Abril de 1978 começou no dia seguinte ao encerramento de uma história que, durante meses, tinha ocupado grande parte do mundo emocional de António. No dia 10, Lina deixara definitivamente de estar no centro da sua vida. A decisão não fora acompanhada pela revolta que tantas vezes acompanha uma ruptura. Ficaram a pena, o desgosto e a consciência de que se enganara na escolha.

No dia seguinte, António começou a olhar noutra direcção.

Ainda não sabia muito bem para onde.

O que se encontra nas páginas de Abril é precisamente essa procura. O vazio deixado pela relação não foi imediatamente preenchido por outra pessoa. Em vez disso, começaram a surgir outras preocupações, outras perguntas e, sobretudo, uma necessidade crescente de compreender o mundo e compreender-se a si próprio.

A escrita ganhou espaço.

António escreveu sobre pessoas, sobre o tempo, sobre Deus, sobre a sociedade, sobre a liberdade, sobre o medo e sobre a felicidade. Algumas dessas reflexões eram ainda confusas, excessivas ou contraditórias. Outras revelavam uma inquietação que começava a ultrapassar as preocupações amorosas que até então tinham dominado muitos dos seus pensamentos.

No dia 17 apareceu uma ideia que, naquele momento, ainda era apenas uma vontade. António gostava de ser escritor. Não sabia o que isso poderia significar na sua vida, nem se alguma vez conseguiria transformar esse desejo em realidade. Mas a possibilidade começou a existir.

E, quase ao mesmo tempo, o mundo exterior abriu outras pequenas portas. Uma carta vinda de Inglaterra trouxe uma nova amizade por correspondência. A tentativa de encontrar um emprego na Polícia Judiciária mostrou-lhe que nem todas as possibilidades eram tão simples como pareciam. Entre uma coisa e outra, António continuava a procurar um lugar para si.

Mas havia também um lado mais inquieto.

As páginas dos últimos dias do mês mergulharam progressivamente em questões mais interiores. O egoísmo que queria expulsar de si, o medo da liberdade, a felicidade que podia esconder falsidade, o mundo que parecia difícil de compreender. Depois vieram Pedro e Simão, personagens através das quais António voltou a falar de solidão, sofrimento e da própria condição humana.

Não seria correcto procurar em Abril respostas que António ainda não possuía. Ele não tinha encontrado uma nova identidade, nem descoberto o caminho que iria seguir. Estava apenas a experimentar possibilidades.

E talvez seja precisamente isso que torna este mês importante.

Depois de tantos meses em que o seu mundo girara sobretudo à volta de uma relação, António começou a descobrir que havia outras coisas que podiam ocupar esse espaço. A escrita tornou-se uma delas. Não ainda como profissão, nem sequer como vocação definida, mas como lugar de liberdade. Um lugar onde podia perguntar, imaginar, discordar, criar personagens e dizer aquilo que, por vezes, não conseguia dizer de outra maneira.

Abril não trouxe respostas.

Trouxe perguntas diferentes.

E, pela primeira vez depois de um longo período em que procurara sobretudo alguém, António começava também a procurar-se a si próprio.


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