Simão, o inferno que é viver

Domingo, 30 de Abril de 1978


Hoje voltei a pensar numa das personagens que já tinha criado. Simão. Talvez tenha sido a solidão de Pedro, de ontem, que me fez lembrar dele. São personagens diferentes, mas há qualquer coisa que as aproxima. Ambas acabam por ficar diante daquilo que é viver, sem conseguirem fugir ao que sentem.

Simão fora outrora uma das minhas personagens que se enquadrava com todos, tanto a rico como a pobre. Talvez por isso me tenha voltado agora à memória. Era alguém que podia estar em qualquer lugar e entre qualquer tipo de pessoas.

Pobre dele, que perdera o gosto pela vida. Naquele dia em que a manhã não chegava, as estrelas estavam baças e o ar sufocava, comprimiu-se-lhe o coração. Foi naquele dia que se sentiu homem.

No momento em que compreendeu o inferno que é viver e o único prazer, a dor, não julgara possível que a vida pudesse jogar como um dado sobre a indiferença do olhar de cada um.

Simão ficou assim perante uma vida que já não conseguia compreender. Talvez seja essa a razão por que continuo a voltar a estas personagens. Há coisas que são mais fáceis de dizer através delas do que quando tento dizê-las directamente.

Parasita indiferente às realidades humanas, cancro das sociedades.

Dia quatro.

Ao terminar, fiquei com a sensação de que Simão não era apenas uma personagem que voltara a aparecer. Talvez tivesse voltado porque ainda havia alguma coisa que eu próprio não conseguia afastar do pensamento. Nem sempre escrevo porque tenho uma resposta. Às vezes escrevo porque ainda não consegui encontrar uma.


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