Pedro, um homem só
Sábado, 29 de Abril de 1978
Hoje fiquei a pensar na solidão e naquilo que poderá levar um homem a sentir-se completamente só. Talvez tenha sido daí que nasceu Pedro, um homem que imaginei sem nada que o prendesse a um lugar ou a alguém.
Pedro era um homem só, com um poder que era devido aos deuses. Não temia os vendavais. Era um homem sem eira nem beira, que tinha como tecto o céu do Universo e como leito o solo que a mãe natureza lhe doava.
Um dia viu-se fechado na escuridão da guerra, que era o seu mundo. Lá fora ouvia o ressoar dos canhões e balas sibilando.
— Estou só! — dizia ele no fundo do buraco, abandonado por todos.
A guerra tornava ainda maior aquela solidão. Pedro estava ali, fechado naquele buraco, enquanto lá fora continuavam os tiros e os canhões. Não tinha ninguém consigo e só lhe restava a própria voz.
Se Deus existisse, paz à sua alma, morreu e ainda não tinha renascido, mas compreendeu.
— Estou só! — dizia ele.
Pedro não deixou de estar só por dizer aquelas palavras. Mas, ao repeti-las, parecia reconhecer aquilo que lhe estava a acontecer.
E fico a pensar que há momentos em que uma pessoa pode estar no meio de muita gente e continuar a sentir-se sozinha. Talvez seja essa a solidão que é mais difícil de explicar, porque não depende apenas de quem está ou não está ao nosso lado.
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