In abstracto
Sexta-feira, 28 de Abril de 1978
A manhã encontrou-me ainda preso aos pensamentos dos últimos dias. Tinha passado da liberdade ao medo, do medo à morte, e ontem acabara por me deter na felicidade e na falsidade. Eram assuntos diferentes apenas à primeira vista. No fundo, todos me levavam ao mesmo lugar, àquilo que o homem mostra e àquilo que verdadeiramente existe por detrás do que mostra.
Hoje senti necessidade de me afastar um pouco de mim próprio.
Talvez por isso tenha começado a pensar nas pessoas como um todo, nesse povo de que também faço parte e que, apesar de todas as diferenças, parece repetir os mesmos gestos, as mesmas palavras e as mesmas ideias. Somos feitos de livros, de discursos, de opiniões que recebemos e repetimos, muitas vezes sem sabermos já onde começou aquilo em que acreditamos.
A leitura pode abrir uma porta, mas também pode tornar-se uma espécie de prisão quando nos limitamos a vasculhar aquilo que outros escreveram sem procurar aquilo que existe para além das palavras.
E foi aí que a minha cabeça começou a perder a direcção. Escrevi quase como quem procura uma saída dentro da própria confusão.
O pensamento tornou-se mais pesado e mais abstracto. Já não havia uma ideia única para seguir. Havia antes uma sucessão de imagens que se ligavam umas às outras apenas porque, naquele momento, faziam sentido dentro de mim.
Pensei no homem que se esconde e naquele que mostra a face. Pensei naquilo que é verdadeiro e naquilo que é apenas uma aparência. Pensei na quantidade de coisas que acumulamos e que acabam por não servir para nada.
Talvez seja esse o absurdo.
Temos livros para guardar ideias, palavras para comunicar pensamentos e rostos para mostrar quem somos. No entanto, continuamos muitas vezes sem conseguir vermo-nos uns aos outros.
Agora, releio estas palavras e reconheço nelas a confusão que trazia comigo.
Não procurei explicar nada. Talvez nem tivesse capacidade para isso. Deixei que as palavras se atropelassem porque era assim que o pensamento se encontrava. Um pensamento que ontem procurava distinguir o verdadeiro do falso e que hoje parece já não saber onde termina uma coisa e começa a outra.
Ficou por dizer se estava a falar dos outros ou de mim. Talvez estivesse a falar de todos nós.
Há dias em que escrevo para encontrar respostas. Hoje escrevi quase pelo motivo contrário. Escrevi para deixar a pergunta aberta, mesmo que ela se escondesse por detrás de imagens estranhas e frases difíceis de seguir.
No fim, ficou-me uma sensação incómoda. Tanta coisa reunida para chegar a tão pouco. Tantas palavras para formar, afinal, um nada.
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