A felicidade sem falsidade
Quinta-feira, 27 de Abril de 1978
Depois do que tinha escrito ontem, fiquei com a sensação de que ainda andava à procura de qualquer coisa dentro de mim. Ontem tinha descido até um lugar onde a vida e a morte se encontravam de uma forma estranha. Hoje, talvez por necessidade de sair desse lugar, comecei a pensar na felicidade.
Mas não numa felicidade de circunstância, dessas que se mostram facilmente e que parecem existir só porque alguém decidiu que devem existir. Pensei antes na facilidade com que se pode fazer acreditar que se é feliz.
É muito fácil ser-se feliz quando se pode falsear aqui e acolá. Basta escolher as palavras certas, esconder o que não convém mostrar e construir uma aparência suficientemente convincente para que os outros aceitem aquilo que lhes é apresentado. Há pessoas que conseguem fazer disso uma verdadeira arte.
Um jogo de palavras pode bastar.
Diz-se uma coisa de determinada maneira, acrescenta-se outra, retira-se aquilo que poderia levantar dúvidas e, quando se dá por isso, já alguém caiu na esparrela. Talvez nem seja preciso mentir completamente. Por vezes basta dizer a verdade pela metade.
Fiquei a pensar então nas palavras falsidade e falso.
A falsidade exige muitas vezes uma intenção. Há nela uma escolha consciente de apresentar uma coisa como sendo aquilo que não é. O falso pode existir simplesmente porque não corresponde à realidade.
E talvez seja justamente aí que começa a confusão.
Podemos viver rodeados de coisas falsas sem que exista necessariamente alguém a tentar enganar-nos. Mas quando a falsidade entra nas relações entre as pessoas, já não é apenas uma questão de aparência. Passa a ser uma forma de comportamento.
Durante o dia fui dando voltas a esta ideia. É fácil apontar a falsidade de alguém quando se está de fora. Mais difícil é perguntar até que ponto aquilo que mostramos aos outros corresponde àquilo que somos quando ninguém nos vê.
Agora, ao reler o que escrevi, percebo que a minha reflexão sobre a felicidade talvez tenha pouco que ver com a felicidade em si mesma. Tem mais que ver com a verdade.
Não sei se a felicidade verdadeira será assim tão fácil de encontrar. Talvez seja precisamente o contrário. Talvez aquilo que é fácil seja apenas parecer feliz.
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