O mundo do meu ser
Quarta-feira, 26 de Abril de 1978
A manhã chegou depois das divagações dos últimos dias, mas não trouxe consigo uma resposta. Desde que comecei a pensar na liberdade, no medo e naquilo que faço da minha própria existência, alguma coisa dentro de mim parecia não encontrar repouso. Havia pensamentos que voltavam sem que eu os chamasse e sensações que não conseguia explicar inteiramente.
Durante o dia fui ficando cada vez mais recolhido. Não precisava de estar a acontecer alguma coisa para que a minha cabeça continuasse a trabalhar. Bastava-me ficar comigo mesmo. Havia momentos em que queria afastar tudo, como se fosse possível encontrar um lugar onde a vida não me exigisse nada. Mas, ao mesmo tempo, havia em mim uma vontade de continuar que não desaparecia.
Foi desse conflito que nasceu o poema. Entre uma coisa e outra estava eu. Foi assim que escrevi.
O mundo do meu ser
Refugio-me no meu mundo que é o meu ser,
Refugio-me da vida que não quero ter,
Não receio a morte, mas quero viver
Peço tréguas á morte
Que me confunde e me rouba o prazer
Que a vida me nutre
Embala-me o sono perdido
Canta alto o que a minha alma imprime
Reforma o ser que é o meu corpo
Mas deixa-me viver
No doce bálsamo da natureza
Deixa que as minhas lágrimas saciem o cacto
Que resiste às intempéries a tua força
Deixa que os seus espinhos
Mutilem a vontade e o prazer
Deixa que a morte
Me aplaque a existência
Com a sua ira
Então, poderei morrer
Escrever tornou-se a maneira que encontrei de não deixar os pensamentos perderem-se. Ponho-os no papel e, por momentos, parecem pertencer menos a mim. Mas continuam lá.
Esta noite, depois de escrever, sinto que ainda não encontrei a resposta. Talvez nem a procurasse verdadeiramente. Talvez precisasse apenas de dizer que, apesar de tudo, ainda quero viver.
E isso ficou escrito entre as palavras que falam da morte.
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