25 de Abril
Terça-feira, 25 de Abril de 1978
Hoje deixei que o dia me levasse para longe.
Vi um soldado a brotar cravos dos buracos das balas. Eram vermelhos, vivos, quase impossíveis naquele lugar onde a morte deveria ter deixado apenas ferro e silêncio. Pensei nele sem saber bem se estava a falar de um homem, de um povo ou de mim próprio. Talvez fosse um pouco de tudo.
Não temas a morte, pensei. Não temas a liberdade.
Mas logo percebi que as duas palavras, colocadas lado a lado, não eram tão simples como pareciam. A liberdade pode ser uma coisa bonita quando se olha para ela de longe. Quando se aproxima, talvez assuste. Exige que cada um saiba o que fazer com aquilo que recebeu e, sobretudo, que deixe de esconder-se atrás das paredes que construiu dentro de si.
Quis embalar aquele soldado contra o meu peito. Quis ouvir a sua canção e fazer dela a minha própria voz. Uma voz que não fosse apenas minha, mas também a voz de todos os que procuram uma razão para existir sem terem de renunciar àquilo que são.
E depois fugi.
Zarpei para longe, para uma terra que não conheço e onde a razão deixou de mandar. Não era um paraíso, porque não havia Deus à minha espera, nem era um inferno, porque também não havia Belzebu para receber-me. Era simplesmente uma ilha perdida num mar de brumas.
Tudo ali era cinzento e pálido.
O Sol não chegava. O canto das aves parecia abafado antes de nascer e as cores confundiam-se umas nas outras, como se o próprio mundo tivesse perdido a vontade de se distinguir. O dia parecia noite. Vivia-se como num sonho e, nesse sonho, o corpo já não projectava sombra e a alma parecia ter deixado de existir.
Talvez tenha sido essa a imagem que hoje encontrei para aquilo que trago cá dentro.
Há momentos em que desejo a liberdade e, ao mesmo tempo, me assusto com ela. Há momentos em que quero sair de mim e outros em que só consigo refugiar-me precisamente dentro de mim. É estranho descobrir que a distância entre uma coisa e a outra pode ser tão pequena.
O soldado ficou para trás, com os seus cravos vermelhos a nascerem dos buracos das balas.
Eu fiquei nesta ilha.
E ainda não sei qual dos dois lugares é mais verdadeiro.
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