Medo

Segunda-feira, 24 de Abril de 1978


Hoje pensei no medo.

Não num medo que venha de fora, de alguma coisa que possa acontecer e que eu não consiga controlar. Pensei no medo que existe dentro de mim, aquele que aparece precisamente quando penso naquilo que mais desejo.

A liberdade.

Tenho medo da minha própria liberdade.

É estranho escrever isto. Sempre pensei que ser livre fosse uma das coisas mais importantes que poderia alcançar. Quero ser independente, quero escolher o meu caminho, quero poder escrever aquilo que penso e construir a minha vida sem estar sempre dependente das decisões dos outros.

Mas, quando penso verdadeiramente nessa liberdade, sinto medo.

Talvez porque a liberdade não seja apenas poder fazer aquilo que queremos. Também é ficar sozinho diante das nossas escolhas. Quando já não podemos culpar ninguém pelo caminho que seguimos, cada decisão passa a ser nossa. E talvez isso assuste mais do que aquilo que imaginamos.

Sinto-me construído pouco a pouco, como um castelo de cartas.

Cada peça foi sendo colocada com cuidado. Uma ideia, uma experiência, uma desilusão, uma esperança, uma vontade. Tudo aquilo que vivi parece ter ficado dentro de mim e ajudado a construir a pessoa que sou. Mas basta uma pequena aragem para fazer estremecer tudo.

E essa aragem é o medo.

Há momentos em que sinto essa sensação quase fisicamente. Como se alguma coisa passasse pelo corpo e deixasse atrás de si um arrepio. Como espinhos a roçarem a pele. Não é fácil explicar. Sei apenas que existe uma inquietação que não consigo afastar quando penso demasiado profundamente naquilo que está diante de mim.

Talvez eu tenha medo de descobrir que a liberdade não é aquilo que imagino.

Talvez tenha medo de mim próprio quando já não houver nada a limitar-me.

Porque é fácil desejar uma porta aberta enquanto estamos do lado de dentro. O que já não é tão fácil é atravessá-la quando percebemos que, depois de sair, teremos de escolher para onde ir.

E eu ainda não sei para onde quero ir.

Tenho pensado muito no futuro. Tenho pensado na escrita, na independência, naquilo que poderei ser. Tenho procurado uma direcção e, ao mesmo tempo, começo a perceber que procurar também pode ser uma forma de caminhar.

Mas continuo a ter medo.

E, apesar disso, não quero que o medo desapareça completamente.

É talvez a coisa mais estranha de tudo.

Há qualquer coisa no medo que me mantém desperto. Obriga-me a pensar, a desconfiar das certezas demasiado fáceis, a olhar outra vez para aquilo que julgo compreender. Se deixasse de ter medo, talvez também deixasse de procurar.

Talvez o medo seja uma espécie de companhia.

Não uma companhia agradável, mas uma presença que me lembra constantemente que ainda não cheguei a lado nenhum.

E talvez seja por isso que não desejo a sua morte.

Prefiro viver com o meu medo.

Prefiro continuar a senti-lo, mesmo que por vezes me pareça absurdo, mesmo que me faça parecer louco. Talvez exista mais razão nessa loucura do que em muitas das certezas que vejo à minha volta.

Há pessoas que parecem saber exactamente o que querem. Eu não.

Talvez isso não seja necessariamente mau.

Ainda estou a construir-me. Ainda há peças que não sei onde colocar. Algumas podem cair. Outras talvez tenham de ser substituídas. E talvez o castelo nunca fique completamente acabado.

Mas é meu.

Hoje percebo que não preciso de deixar de ter medo para ser livre.

Talvez precise apenas de aprender a viver com ele.

Se a liberdade é caminhar sem saber exactamente onde termina o caminho, então talvez o medo faça parte dessa caminhada.

E, se tiver de escolher entre viver protegido dentro de um castelo de cartas ou sair para o mundo sabendo que uma simples aragem pode fazê-lo desmoronar, talvez ainda prefira sair.

Mesmo com medo.

Mesmo que pareça loucura.

Talvez seja essa a minha maneira de começar a ser livre.
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