É preciso expurgar o egoísmo
Domingo, 23 de Abril de 1978
Hoje fiquei a pensar numa coisa que não me é fácil admitir.
O egoísmo.
Não aquele egoísmo evidente, que se vê facilmente nos outros e que condenamos sem dificuldade. Refiro-me ao que existe dentro de mim e que, por vezes, nem eu próprio consigo reconhecer imediatamente.
Talvez tenha havido momentos em que me preocupei demasiado comigo. Com aquilo que queria, com aquilo que esperava, com aquilo que julgava merecer. Talvez tenha confundido algumas vezes aquilo que era justo com aquilo que simplesmente me convinha.
É fácil acreditar que temos razão quando estamos dentro da situação.
Vemo-la através dos nossos próprios olhos e tudo parece encaixar. Depois basta alguém olhar de fora para descobrir uma coisa que nós não conseguimos ver. Uma ingenuidade, uma exagerada importância dada a qualquer pormenor, ou simplesmente uma vontade de acreditar que aquilo que pensamos tem necessariamente de estar certo.
Não ficaria surpreendido se alguém se opusesse ao que penso hoje.
Talvez até seja necessário que isso aconteça.
Tenho vontade de retirar de mim esse egoísmo que me perturba. Não quero continuar a carregar uma coisa que, muitas vezes, me confunde a própria cabeça. É como se uma parte de mim estivesse sempre a puxar numa determinada direcção, enquanto outra tenta perceber se esse caminho é realmente o certo.
E fico dividido.
Há momentos em que me sinto acordado e adormecido ao mesmo tempo. Continuo a pensar, a observar, a tentar compreender, mas parece que uma parte de mim permanece mergulhada numa espécie de torpor.
Talvez seja porque ainda não encontrei exactamente aquilo que procuro.
Tenho pensado muito em quem sou e naquilo que quero vir a ser. Quero ser livre, quero escrever, quero encontrar o meu lugar. Mas talvez nenhuma dessas coisas seja possível enquanto continuar preso às partes de mim que ainda não consigo dominar.
Não posso exigir liberdade sem primeiro aprender a lidar comigo próprio.
E talvez o egoísmo seja uma dessas coisas que tenho de enfrentar.
Não quero destruí-lo apenas porque alguém me disse que está errado. Quero perceber de onde vem. Quero descobrir porque aparece, porque me confunde e porque, algumas vezes, me leva a pensar primeiro em mim e só depois nos outros.
Se conseguir perceber a raiz, talvez consiga arrancá-la.
É como uma erva daninha.
Podemos cortá-la à superfície e durante algum tempo parece que desapareceu. Mas, se a raiz continuar dentro da terra, volta a nascer.
Comigo talvez aconteça o mesmo.
Não basta dizer que quero mudar. Não basta reconhecer um defeito num momento de lucidez e depois esquecer-me dele. Se realmente quero crescer, tenho de persistir até encontrar aquilo que está por baixo das minhas reacções, das minhas vontades e das minhas contradições.
Talvez seja esse o trabalho mais difícil de todos.
Conhecer os outros pode ser complicado, mas conhecer-me a mim próprio é ainda mais.
Hoje percebo que não quero continuar a fugir daquilo que encontro dentro de mim.
Quero arrancar o que me faz mal.
Mesmo que para isso tenha de ir muito fundo.
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